Costão Rochoso: Muito mais que um amontoado de pedras

Costão Rochoso: Ecossistema Marinho ou Terrestre?

Com certeza você já foi à praia e reparou em todas aquelas rochas que ficam, em sua maioria, nas laterais, ao fim da faixa de areia. Muito provavelmente, você também já subiu e andou por elas. Mas será que você realmente as explorou com os olhos de biólogo? Já parou para pensar e observar quanta vida tem ali? Pois então, venha com a Bióicos conhecer mais sobre esse ecossistema incrível que é o costão rochoso!

Os costões rochosos, assim como manguezais e praias arenosas, por exemplo, são ecossistemas costeiros encontrados no limite entre o continente e o oceano. Apesar disso, as espécies que neles vivem são, basicamente, marinhas e, portanto, são considerados ambientes mais marinhos do que terrestres. Como o nome indica, são formados por afloramentos rochosos que, por sua vez, podem ser estruturados como paredões verticais, estendendo-se por vários metros acima e abaixo do nível da água, ou como rochas fragmentadas de pequena inclinação, apresentando, assim, graus variados de exposição às ondas.

Costões rochosos podem ser encontrados ao longo de quase toda a costa brasileira, estendendo-se desde Torres (RS) até a Baía de São Marcos (MA). A maior concentração, no entanto, está na região Sudeste, onde a costa apresenta muitos recortes e a cadeia montanhosa da serra-do-mar está mais próxima em relação ao oceano. Desta forma, observa-se uma relação entre a presença de costões rochosos e a ocorrência de serras próximas ao Oceano Atlântico. Podemos tomar como exemplo dessa associação, no Estado de São Paulo, as cidades de Ubatuba, onde a Serra do Mar encontra-se com o oceano e os costões predominam, e Cananéia, onde a serra está mais distante do mar e os ecossistemas predominantes são o manguezal e a restinga.

E onde é que está a vida?

O costão rochoso é o que chamamos de substrato consolidado. Por ser rígido, é um excelente local para a fixação de espécies sésseis (aquelas que vivem fixas a um substrato), além de um abrigo seguro contra a força das correntes marinhas e o impacto das ondas. Por isso, você pode até não perceber à primeira vista, mas o costão rochoso sustenta uma comunidade biológica muito rica e complexa. Inclusive, os organismos que nele habitam desenvolveram, ao longo da evolução, formas de vida e adaptações para sobreviverem nesse ambiente inconstante.

Devido à rebentação das ondas, muitos organismos precisam se fixar fortemente sobre as rochas ou utilizá-las como abrigo. Como exemplo, podemos observar diversas espécies de algas, mexilhões, cracas, anêmonas-do-mar e quítons, todos utilizando suas respectivas estratégias para se manterem aderidos. Outra adaptação importante para viver no costão é ser pequeno, plano e com ‘pés’ grandes, para evitar se desprender e ser levado pelas ondas, como fazem os moluscos gastrópodes. Estrelas, pepinos e ouriços-do-mar, por sua vez, possuem pés com ventosas (conhecidos como pés ambulacrais), com os quais se prendem nas rochas. Há também organismos incrustantes como esponjas, ascídias coloniais e briozoários, além daqueles com formas arborescentes e flexíveis como hidrozoários e outras espécies de briozoários. Diversas espécies e tipos de corais também utilizam as rochas do costão para se fixar e construir seus esqueletos.

Além dos organismos fixos, espécies de vida livre também vivem associadas aos costões, utilizando-os como abrigo ou como locais para procurar alimento. É o caso das baratas-da-praia (no ambiente aéreo), dos caranguejos e dos camarões, das lesmas-do-mar, de diversas espécies de peixes e até de tartarugas marinhas, como a tartaruga-verde, que pastoreia nas algas fixadas no costão rochoso.

Viu só, quanta vida pode haver nos costões? E esses são só alguns exemplos. Existe ainda uma infinidade de organismos associados a eles.

Distribuição Vertical: A Zonação

Mas não é só o impacto das ondas que exige adaptações dos organismos, eles também são adaptados aos efeitos das marés e a fatores bióticos, como competição, predação e herbivoria. Uma vez que o nível da maré muda ao longo do dia, os organismos que vivem na região mais elevada das rochas precisam estar preparados para resistir a períodos fora da água, com temperaturas mais elevadas, e receber insolação. Os organismos que não possuem essa capacidade, no entanto, ficam restritos às zonas inferiores, onde estão sempre submersos, mesmo durante a maré baixa.

Desta forma, os habitantes do costão não vivem sobre ele de forma aleatória. Ao contrário, eles ocorrem em faixas horizontais bem definidas, e esse fenômeno é mundialmente conhecido como zonação.

No geral, são definidas três zonas de distribuição principais:

  • Supralitoral, região permanentemente fora d’água, onde chegam apenas borrifos das ondas e onde vivem espécies mais adaptadas à perda de água, como caramujos e baratas-da-praia;
  • Mesolitoral, região entremarés que fica exposta na maré baixa e submersa na maré alta, onde encontramos as cracas mais acima, os mexilhões mais abaixo, quítons, moluscos gastrópodes e até algumas algas; e
  • Infralitoral, região permanentemente submersa, onde vivem espécies que não toleram a dessecação, como algas, ouriços-do-mar, caranguejos e camarões.

Da próxima vez que for à praia, pare e observe: você verá nitidamente o padrão da zonação!

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Por Julia R. Salmazo e Douglas Peiró. Revisão: Thais Semprebom e Regiane Dall’Aqua

Artigo técnico postado em: http://www.bioicos.com.br/single-post/costoes-rochosos-muito-mais-que-um-amontoado-de-rochas