{"id":7275,"date":"2019-12-15T12:07:53","date_gmt":"2019-12-15T15:07:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/?p=7275"},"modified":"2022-12-03T21:57:21","modified_gmt":"2022-12-04T00:57:21","slug":"aviao-proprio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/ubatuba2\/aviao-proprio\/","title":{"rendered":"O morador de Ubatuba que construiu seu pr\u00f3prio avi\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Ubatuba tem algumas curiosidades impressionantes, como o caso do franc\u00eas Jean Pierre Patural que construiu seu pr\u00f3prio avi\u00e3o e fazia o trajeto Ubatumirim &#8211; Vale do Para\u00edba com frequ\u00eancia, e isso em meados da d\u00e9cada de 1950. Jean Pierre morava em Taubat\u00e9 quando comprou um s\u00edtio no sert\u00e3o do Ubatumirim, construiu sua casa, cultivou sua terra, e construiu seu pr\u00f3prio barco para distribuir suas colheitas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Insatisfeito com a precariedade de acesso a Ubatuba naquela \u00e9poca, tendo conhecimentos pr\u00e9vios de engenharia, encomendou um projeto de avi\u00e3o franc\u00eas, seguiu as orienta\u00e7\u00f5es dos manuais e montou seu pr\u00f3prio avi\u00e3o. Fez curso de pilotagem, tirou o Brev\u00ea ganhando assim agilidade em suas v\u00e1rias viagens de neg\u00f3cio, em especial com o Vale do Para\u00edba e se tornou um pioneiro na avia\u00e7\u00e3o do litoral norte de SP.<\/p>\n<figure id=\"attachment_8374\" aria-describedby=\"caption-attachment-8374\" style=\"width: 1080px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-8374 size-full\" src=\"https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Avi\u00e3o-constru\u00eddo-por-morador-de-Ubatuba.jpg\" alt=\"O avi\u00e3o de Jean Pierre\" width=\"1080\" height=\"445\" srcset=\"https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/ubatuba2\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Avi\u00e3o-constru\u00eddo-por-morador-de-Ubatuba.jpg 1080w, https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/ubatuba2\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Avi\u00e3o-constru\u00eddo-por-morador-de-Ubatuba-300x124.jpg 300w, https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/ubatuba2\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Avi\u00e3o-constru\u00eddo-por-morador-de-Ubatuba-768x316.jpg 768w, https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/ubatuba2\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Avi\u00e3o-constru\u00eddo-por-morador-de-Ubatuba-1024x422.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 1080px) 100vw, 1080px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-8374\" class=\"wp-caption-text\"><em><strong>Jean Pierre Patural e seu avi\u00e3o<\/strong><\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Hist\u00f3ria contada por Silvia Pollaco Patural<\/strong><br>Este \u00e9 um resumo da conversa com dona Silvia (esposa de Jean Pierre) que trata da aventura fant\u00e1stica de um jovem casal de franceses que sonharam com uma fazenda exemplar na Sesmaria do Ubatumirim, em 1954, quando nem se sonhava com a abertura de estrada para a por\u00e7\u00e3o norte do munic\u00edpio de Ubatuba. Para se chegar naquelas dist\u00e2ncias t\u00ednhamos duas alternativas: ou se arriscava numa canoa, ou se embrenhava pelos \u201ccaminhos de servid\u00e3o\u201d, subindo morro, andando em praias, atravessando rios, como era coisa comum aos cai\u00e7aras daquela \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poucas pessoas faziam investimento em Ubatuba, um desses poucos foi F\u00e9lix Guisard, da Companhia Taubat\u00e9 Industrial, que teve a iniciativa de apresentar ao jovem casal de franceses o quanto este peda\u00e7o de Brasil tinha de promissor, mesmo estando t\u00e3o isolado, com os cai\u00e7aras que s\u00f3 tinham o \u201cde com\u00ea\u201d. Naquele tempo quem queria ver dinheiro migrava para a labuta nos bananais da Baixada Santista, ou ia morar em Caraguatatuba e trabalhar na fazenda dos ingleses.<br>Leiam a narrativa a seguir, contada por dona Silvia Pollaco Patural (em 30\/04\/2002), esposa de Jean-Pierre (o autor da fa\u00e7anha) e se impressionem com esta hist\u00f3ria e curiosidade de Ubatuba.&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_8387\" aria-describedby=\"caption-attachment-8387\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-8387 lazyload\" data-src=\"https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Dona-Silvia-Jovem-Francesa-Ubatumirim-1.png\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"392\" src=\"data:image\/gif;base64,R0lGODlhAQABAAAAACH5BAEKAAEALAAAAAABAAEAAAICTAEAOw==\" style=\"--smush-placeholder-width: 350px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 350\/392;\"><figcaption id=\"caption-attachment-8387\" class=\"wp-caption-text\"><em><strong>Dona Silvia &#8211; jovem francesa &#8211; Ubatumirim<\/strong><\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>A vinda para o Brasil<\/strong><br><em>\u201cN\u00f3s n\u00e3o ca\u00edmos do c\u00e9u, de repente. A nossa vinda para o Brasil foi bem refletida, mas n\u00e3o deixou de ter uma forte dose de ousadia e coragem. Meu marido fez, na Fran\u00e7a, um curso de Agronomia Tropical. Era uma escola para administradores e funcion\u00e1rios do Estado, com a finalidade de trabalhar na \u00c1frica, na \u00c1sia, enfim, nas \u00e1reas que eram col\u00f4nias francesas.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Aconteceu que, com a descoloniza\u00e7\u00e3o, acabou tal finalidade. Por\u00e9m, ele pretendia investir naquilo que aprendeu. Havia tamb\u00e9m o risco de ser convocado para a guerra (da Indochina). A solu\u00e7\u00e3o era procurar outro pa\u00eds, come\u00e7ar outra vida praticando as habilidades adquiridas em agronomia e zootecnia. Por isso passamos a fazer uma avalia\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses, de prefer\u00eancia com caracter\u00edsticas tropicais, examinando bem todas as possibilidades. Pensamos no M\u00e9xico e em outros, mas o Brasil nos pareceu mais interessante.<br><\/em><em>Passamos a outra fase, que foi conhecer melhor o pa\u00eds: ouvimos palestras, assistimos \u2018slides\u2019, etc. S\u00f3 sei que ficamos por dentro das culturas mais favor\u00e1veis (banana, caf\u00e9, cacau&#8230;) e das reais condi\u00e7\u00f5es para um empreendimento agr\u00edcola no Brasil. Assim, no ano de 1948, embarcamos em Bordeaux e desembarcamos no porto de Santos. De Santos, uma importante cidade portu\u00e1ria j\u00e1 naquela \u00e9poca, seguimos para a capital paulista. E, modestamente, por eu falar perfeitamente o italiano, pois era italiana de nascimento e, em nossa casa, mesmo estando na Fran\u00e7a, sempre fal\u00e1vamos a l\u00edngua italiana, me sa\u00eda muito melhor que o meu marido que, al\u00e9m do franc\u00eas, s\u00f3 falava ingl\u00eas. O italiano \u00e9 mais compreens\u00edvel aos brasileiros, n\u00e9?<\/em><\/p><em>\n<\/em><p><em><\/em><em>No in\u00edcio, para nos mantermos, come\u00e7amos a dar aulas de piano e franc\u00eas. \u00c9 preciso lembrar que, naquele tempo, a l\u00edngua francesa tinha um \u2018status\u2019 compar\u00e1vel \u00e0 l\u00edngua inglesa nos dias atuais. Logo nos encontramos com um patr\u00edcio que se sensibilizou com a nossa situa\u00e7\u00e3o e nos apresentou a possibilidade de irmos para a cidade de Taubat\u00e9, pois achava que n\u00e3o era uma boa alternativa continuarmos na cidade grande. Disse-nos ainda que nas proximidades de Taubat\u00e9 e em outras cidades do Vale do Para\u00edba havia muitas fazendas, com possibilidades de realizarmos o nosso sonho. Assim deixamos a cidade de S\u00e3o Paulo.<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_8386\" aria-describedby=\"caption-attachment-8386\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-8386 lazyload\" data-src=\"https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Jean-Pierre.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"260\" data-srcset=\"https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/ubatuba2\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Jean-Pierre.jpg 584w, https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/ubatuba2\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Jean-Pierre-300x222.jpg 300w\" data-sizes=\"(max-width: 350px) 100vw, 350px\" src=\"data:image\/gif;base64,R0lGODlhAQABAAAAACH5BAEKAAEALAAAAAABAAEAAAICTAEAOw==\" style=\"--smush-placeholder-width: 350px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 350\/260;\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-8386\" class=\"wp-caption-text\"><em><strong>Jean Pierre Patural<\/strong><\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conhecendo Ubatuba<\/strong><br><em>Chegamos esperan\u00e7osos em Taubat\u00e9, mas as condi\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m n\u00e3o estavam t\u00e3o favor\u00e1veis. Nesse \u00ednterim nasceu Patr\u00edcia. Deste tempo \u00e9 a experi\u00eancia de arrendamento de um s\u00edtio em Reden\u00e7\u00e3o da Serra, onde ensaiamos um modelo de produ\u00e7\u00e3o, sobretudo de batatas. A seguir conhecemos Ubatuba. Atrav\u00e9s de um convite de uma fam\u00edlia muito amiga, os Guisard, viemos, em 1953, conhecer Ubatuba. Eles eram os donos do <a href=\"https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/sobradao-casarao-do-porto\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Casar\u00e3o<\/a>, onde est\u00e1 atualmente a sede da Fundart. Foi em uma de suas casinhas, atr\u00e1s do Casar\u00e3o, que n\u00f3s ficamos hospedados. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Meu marido,&nbsp; Jean-Pierre, se entusiasmou pela cidade. \u00c9 preciso lembrar que ele adorava o mar; era um velejador em nossa terra natal. Ainda temos a foto de seu primeiro veleiro na regi\u00e3o do Canal da Mancha, Bretanha, norte da Fran\u00e7a. Logo se empolgou em investir aqui. Em 1954 n\u00f3s partimos \u00e0 procura de um lugar que, al\u00e9m de agrad\u00e1vel, oferecesse as condi\u00e7\u00f5es prop\u00edcias de cultivo e de instala\u00e7\u00f5es. Meu marido era um empreendedor. O lado sul do munic\u00edpio logo ficou fora de cogita\u00e7\u00e3o. Motivo: a abertura da rodovia Ubatuba-Caraguatatuba estava sendo conclu\u00edda, fazendo com que os pre\u00e7os das terras daquele lado encarecessem muito. Ent\u00e3o nos falaram do lado norte, das vastas \u00e1reas e de outras vantagens.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Num final de semana, ap\u00f3s deixarmos a Patr\u00edcia com algu\u00e9m de muita confian\u00e7a em Taubat\u00e9, come\u00e7amos a nossa aventura para o lado norte do munic\u00edpio. Por volta do meio-dia deixamos a cidade, seguindo sempre a p\u00e9.&nbsp;&nbsp;Passamos o <a href=\"https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/pereque-acu\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Perequ\u00ea A\u00e7u<\/a>, o <a href=\"https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/saco-da-mae-maria\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Saco da M\u00e3e Maria<\/a>, a <a href=\"https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/praia-vermelha-do-norte\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">praia Vermelha<\/a> com suas areias grossas, a <a href=\"https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/praia-do-alto\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">praia do Alto, <\/a>que at\u00e9 hoje \u00e9 muito bonita, a <a href=\"https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/itamambuca\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">praia de Itamambuca<\/a>. Imagine tudo isso a p\u00e9 e com muito calor! Depois chegamos ao morr\u00e3o da praia do F\u00e9lix e, finalmente, paramos ao escurecer, na praia do L\u00e9o, aquela que, devido a um desabamento da estrada ap\u00f3s forte chuva, est\u00e1 soterrada numa boa parte.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Na praia do L\u00e9o batemos palmas numa casa e perguntamos se havia ali por perto alguma pousada ou coisa do g\u00eanero. Imagine s\u00f3!!! Isso era comum na Europa. Disseram que n\u00e3o. Nos ofereceram um pouso, numa cama simples com esteira de taboa. Foram muito gentis conosco.&nbsp;&nbsp;No dia seguinte, j\u00e1 sabendo dos nossos motivos, disseram que para os lados do Ubatumirim e do Puruba \u00e9 que tinha boas terras. E era mesmo! Pura verdade!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>No rio Puruba paramos e esperamos um bom tempo at\u00e9 que o balseiro aparecesse. Parece que ele estava almo\u00e7ando, depois deve ter dormido um pouquinho. Nem me lembro mais direito deste detalhe. S\u00f3 sei que ele apareceu e, assim alcan\u00e7amos a praia da Justa. Finalmente, depois de um pequeno morro, est\u00e1vamos no Ubatumirim.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As terras do Ubatumirim<\/strong><br><em>De fato as terras do Ubatumirim, sobretudo as da Sesmaria, nos agradaram muito. A\u00ed fomos acolhidos na casa da fam\u00edlia do Manoel Leopoldo. Para a dormida nos dispuseram uma sala com esteiras e penico, onde havia um mont\u00e3o de sap\u00ea secando. Era um calor\u00e3o de janeiro; baratas passeavam por todos os lados. Ao abrirmos a porta para a entrada de frescor, tamb\u00e9m entraram os cachorros. Mesmo assim, n\u00f3s, de t\u00e3o cansados, desmaiamos.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>No dia seguinte fomos conhecer a Sesmaria, dos Nunes Pereira. Gostamos muito. Ainda bem que a volta para a cidade foi de canoa. Chegando \u00e0 cidade, logo procuramos nos informar sobre a situa\u00e7\u00e3o legal daquelas terras. Quem nos deu seguran\u00e7a e nos garantiu da propriedade dos Nunes Pereira&nbsp;&nbsp;foi o coronel Ernesto de Oliveira, pai do \u201cFilhinho\u201d (da farm\u00e1cia). Satisfeitos e cansados embarcamos no \u00f4nibus para Taubat\u00e9. A viagem durava em m\u00e9dia quatro horas, mas o tempo tinha de estar bom, sem chuva, sen\u00e3o&#8230;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Ap\u00f3s um breve per\u00edodo fizemos a segunda viagem para o Ubatumirim. Desta vez a noite nos alcan\u00e7ou na praia da Itamambuca. Novamente pedimos pouso, mas as condi\u00e7\u00f5es estavam t\u00e3o cr\u00edticas, enquanto que o luar e a noite estava t\u00e3o convidativos, que acabamos pegando uma&nbsp;&nbsp;humilde coberta que nos ofereceram e fomos dormir nas areias da praia. Jean-Pierre somente ajeitou os \u201ctravesseiros\u201d com a pr\u00f3pria areia. S\u00f3 sei que acordamos no dia seguinte com o sol brilhando e a mar\u00e9 quase nos alcan\u00e7ando os p\u00e9s.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em> Chegando no Ubatumirim nos reencontramos com o Man\u00e9 Leopoldo e compramos a Sesmaria do Ubatumirim, que era dos Nunes Pereira. Ela distava seis ou sete quil\u00f4metros da praia. Mais tarde n\u00f3s compramos mais uma posse. Logo iniciamos a planta\u00e7\u00e3o de bananeiras, alcan\u00e7ando a marca, em poucos anos, de trinta mil p\u00e9s.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>A primeira dificuldade sentida era com rela\u00e7\u00e3o ao deslocamento, pois se perdia muito tempo indo a p\u00e9 desde a cidade at\u00e9 o Ubatumirim. Me parece que pelo mar a dist\u00e2ncia era de vinte e dois quil\u00f4metros, enquanto que por terra, seguindo o caminho usual dos cai\u00e7aras, perfazia trinta e seis quil\u00f4metros.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A constru\u00e7\u00e3o do barco e do avi\u00e3o<\/strong><br><em>Eu trabalhava lecionando franc\u00eas em Taubat\u00e9, enquanto o meu marido se dedicava com exclusividade ao nosso empreendimento em Ubatuba, pois t\u00ednhamos camaradas que precisavam ser orientados e acompanhados em seus trabalhos, sen\u00e3o&#8230; Dessa necessidade surgiu a ideia de se fazer um barco. Foi quando o nosso quintal em Taubat\u00e9 se transformou num &#8220;mini estaleiro&#8221;, recebendo as madeiras e o motor de centro-modelo Ford alem\u00e3o.<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_8379\" aria-describedby=\"caption-attachment-8379\" style=\"width: 780px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-8379 lazyload\" data-src=\"https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/jEAN-pIERRE.png\" alt=\"\" width=\"780\" height=\"505\" data-srcset=\"https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/ubatuba2\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/jEAN-pIERRE.png 640w, https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/ubatuba2\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/jEAN-pIERRE-300x194.png 300w\" data-sizes=\"(max-width: 780px) 100vw, 780px\" src=\"data:image\/gif;base64,R0lGODlhAQABAAAAACH5BAEKAAEALAAAAAABAAEAAAICTAEAOw==\" style=\"--smush-placeholder-width: 780px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 780\/505;\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-8379\" class=\"wp-caption-text\"><em><strong>Jean Pierre &#8211; inscri\u00e7\u00e3o n\u00famero um&nbsp;na nossa Col\u00f4nia dos Pescadores.<\/strong><\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Logo o barco ficou pronto. E agora? Como tir\u00e1-lo do quintal? Ainda bem que no terreno ao lado n\u00e3o havia nada de constru\u00e7\u00e3o. A solu\u00e7\u00e3o foi derrubar um peda\u00e7o do muro, passar o barco e, depois, refazer a parede. Um caminh\u00e3o foi utilizado para trazer o barco at\u00e9 Ubatuba. Parece-me que foi o primeiro barco registrado na Col\u00f4nia dos Pescadores. Isso foi em 1956. Ainda temos tal documento em perfeito estado de conserva\u00e7\u00e3o. Esse barco nos foi muito \u00fatil. Por\u00e9m, em diversas ocasi\u00f5es em que precis\u00e1vamos dele pass\u00e1vamos raiva, pois os empregados se aproveitavam das nossas aus\u00eancias e sa\u00edam para passear ou pescar. Isso gastava a nossa paci\u00eancia.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O barco ajudava, mas mesmo assim, devido ao g\u00eanio de praticidade do meu marido, se fazia necess\u00e1rio outra alternativa de transporte que diminu\u00edsse a perda de tempo. Havia tamb\u00e9m, no caso do barco, uma depend\u00eancia das condi\u00e7\u00f5es do mar. Nesse \u00ednterim j\u00e1 t\u00ednhamos constru\u00eddo a nossa primeira casa no Ubatumirim. Assim, Jean-Pierre resolveu adquirir um avi\u00e3o, ou melhor, encomendou as instru\u00e7\u00f5es de uma empresa francesa. Novamente o nosso quintal em Taubat\u00e9 se transformou. <\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_8380\" aria-describedby=\"caption-attachment-8380\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-8380 lazyload\" data-src=\"https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/JEAN-PIERRE-barco.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"467\" data-srcset=\"https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/ubatuba2\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/JEAN-PIERRE-barco.jpg 240w, https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/ubatuba2\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/JEAN-PIERRE-barco-225x300.jpg 225w\" data-sizes=\"(max-width: 350px) 100vw, 350px\" src=\"data:image\/gif;base64,R0lGODlhAQABAAAAACH5BAEKAAEALAAAAAABAAEAAAICTAEAOw==\" style=\"--smush-placeholder-width: 350px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 350\/467;\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-8380\" class=\"wp-caption-text\"><em><strong>O barco de Jean Pierre<\/strong><\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Agora era um hangar. Logo estava pronta a fuselagem; as asas deram mais trabalho. Um servi\u00e7o que mais me impressionou foi a confec\u00e7\u00e3o da h\u00e9lice: dos peda\u00e7os de madeira marfim surgiram as p\u00e1s com suas aerodin\u00e2micas perfeitas. Depois de pronto ele saiu do nosso quintal seguindo o mesmo modo da retirada do barco.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Ap\u00f3s aprova\u00e7\u00e3o do Centro T\u00e9cnico Aeroespacial de S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, Jean-Pierre tirou brev\u00ea de piloto no Campo de Marte,em S\u00e3o Paulo. A\u00ed foi uma maravilha!!! A partir de Pindamonhangaba, pois em Taubat\u00e9 n\u00e3o havia campo de avia\u00e7\u00e3o, lev\u00e1vamos trinta e oito minutos at\u00e9 alcan\u00e7armos a nossa \u00e1rea de pouso no Ubatumirim, que constru\u00edmos na proximidade da nossa casa.&nbsp;&nbsp;Na cabine havia espa\u00e7o para duas pessoas; a Patr\u00edcia ia no colo. <\/em><\/p><em>\n<\/em><p><em><\/em><strong>A vida no Ubatumirim<\/strong><br><em>Aproveit\u00e1vamos as f\u00e9rias escolares todas na ro\u00e7a. Quando a Patr\u00edcia tinha quatro anos, nasceu Jean-Pierre Patural J\u00fanior. \u00c9, pois \u00e9! Ele nasceu no Ubatumirim! Ele veio antes do previsto. Essas coisas acontecem; as mulheres entendem bem disso: as crian\u00e7as n\u00e3o nascem no dia em que achamos que v\u00e3o nascer. Est\u00e1vamos no Ubatumirim, na nossa aconchegante casinha, quando comecei a sentir as contra\u00e7\u00f5es. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>S\u00f3 que eu n\u00e3o fiquei nem um pouquinho preocupada, pois confiava muito no meu marido. Ele tamb\u00e9m era zootecn\u00f3logo; tinha sido o parteiro no momento do nascimento da Patr\u00edcia, em nossa casa de Taubat\u00e9. E, convenhamos, c\u00e1 entre n\u00f3s: n\u00e3o existe muita diferen\u00e7a entre o parto de uma mulher e o parto de uma vaca. Al\u00e9m do mais eu pensava: muitas mulheres j\u00e1 deram \u00e0 luz neste lugar, com condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de higiene; seus filhos est\u00e3o todos vivos. Isso sem contar que t\u00ednhamos uma farm\u00e1cia&nbsp;&nbsp;bem montada para atender, em casos de emerg\u00eancia, a popula\u00e7\u00e3o local. Ah!!! Quantas vezes ela foi usada!!!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Assim nasceu a nossa segunda crian\u00e7a. A \u00fanica inconveni\u00eancia foi a falta de roupinhas e de fraldas para proteg\u00ea-lo. Um len\u00e7ol, que ainda era parte do nosso enxoval, foi cortado em peda\u00e7os regulares e resultou em oito fraldas. Ah! N\u00f3s mant\u00ednhamos&nbsp;&nbsp;na praia um ponto comercial, uma \u201cvendinha\u201d, para atendimento, sobretudo, dos empregados. L\u00e1 tinha, inclusive, o morim, que era um tecido muito barato. Foi de l\u00e1 que o meu marido trouxe os panos que eu os transformei, costurando \u00e0 m\u00e3o, em v\u00e1rias pecinhas de roupas. Um balaio serviu de ber\u00e7o para o beb\u00ea.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Carmem era uma adolescente com quinze anos quando o Jean-Pierre nasceu. Desde cedo ela adotou o menino; foi a bab\u00e1 desde o primeiro instante. N\u00f3s a levamos para Taubat\u00e9 e, ela s\u00f3 deixou a nossa casa para se casar. Foi como uma filha. Era gente do Apolin\u00e1rio. Atualmente mora no Jardim Luamar (Estufa II) e est\u00e1 muito bem. \u00c9 certo que passou por certas dificuldades, mas soube usar a cabe\u00e7a. Estamos felizes por ela.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>S\u00f3 tem uma coisa que me marcou bastante: a volta com o beb\u00ea para Taubat\u00e9. Ainda estava toda dolorida e tive que vir de canoa para a cidade, depois embarcar no \u00f4nibus para Taubat\u00e9 e enfrentar tantas horas de sacolejo numa estrada medonha.<\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-8377 lazyload\" data-src=\"https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/jEAN-pIERRE-TRATOR.png\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"309\" src=\"data:image\/gif;base64,R0lGODlhAQABAAAAACH5BAEKAAEALAAAAAABAAEAAAICTAEAOw==\" style=\"--smush-placeholder-width: 350px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 350\/309;\"><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A compra do trator<\/strong><br><em>Ap\u00f3s seis anos plantando, com v\u00e1rios funcion\u00e1rios (Dito Rolim, Melentino&#8230;), a planta\u00e7\u00e3o estava em franca produ\u00e7\u00e3o, come\u00e7ando a dar lucro. Surgiu a necessidade de aprimorar o transporte dos produtos. Era o ano de 1958 quando compramos, na Casa Granadeiro, em Taubat\u00e9, um trator. Quest\u00e3o: Como trazer o trator para Ubatuba, depois lev\u00e1-lo at\u00e9 o Ubatumirim? Solu\u00e7\u00e3o: Desmont\u00e1-lo todinho, transportar pela rodovia e pelo mar, e, remont\u00e1-lo na ro\u00e7a, onde ficou definitivamente.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Aconteceu a melhoria na estrada da Sesmaria para o tr\u00e2nsito adequado do trator. Para levar o trator at\u00e9 o bananal, Jean-Pierre abriu uma estrada de sete quil\u00f4metros, sem m\u00e1quinas, apenas com foices e enxadas. No local denominado \u201cGurita\u201d foi preciso fazer uma ponte de madeira que fosse bem resistente para que pudesse passar o trator puxando a carreta carregada de bananas. Ele ainda ensinou um empregado chamado Freitas a dirigir o trator, dando algumas no\u00e7\u00f5es de mec\u00e2nica. <\/em><em style=\"font-size: inherit;\">Pensava, num futuro pr\u00f3ximo, ensinar outros rapazes e montar um curso para a forma\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicos agr\u00edcolas. Foi uma grande novidade. Era gostoso ver o trator repleto de meninos, com o meu marido passeando com eles; lotavam a carroceria. Essa condu\u00e7\u00e3o era atrelada a um carro\u00e7\u00e3o que escoava toda a produ\u00e7\u00e3o para a praia, onde um barco grande, cujo nome era Manaus,&nbsp;&nbsp;comprava tudo.<\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-8381 lazyload\" data-src=\"https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Avi\u00e3o-Jean-Pierre.png\" alt=\"O avi\u00e3o de Jean Pierre\" width=\"350\" height=\"312\" src=\"data:image\/gif;base64,R0lGODlhAQABAAAAACH5BAEKAAEALAAAAAABAAEAAAICTAEAOw==\" style=\"--smush-placeholder-width: 350px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 350\/312;\"><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O desastre<\/strong><br><em>Chegamos \u00e0 parte mais dolorosa da hist\u00f3ria de Jean-Pierre Patural e familiares. Em 1961 aconteceu o desastre. Numa v\u00e9spera de embarque de bananas, Jean Pierre decolou para Ubatuba. Ao chegar ao Ubatumirim constatou que uma pe\u00e7a fundamental para que o trator funcionasse estava quebrada e, a urg\u00eancia do servi\u00e7o fez com ele&nbsp;&nbsp;retornasse no mesmo dia para Taubat\u00e9. Estranhamos o seu retorno.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Como sab\u00edamos que ele tinha retornado? Era f\u00e1cil, pois o h\u00e1bito dele era, antes de aterrissar em Pindamonhangaba, dar um voo rasante sobre a nossa casa. Assim, calcul\u00e1vamos que ap\u00f3s uma hora j\u00e1 estaria conosco. Era o tempo suficiente para acomodar a aeronave no seu devido espa\u00e7o e tomar um \u00f4nibus que circulasse entre as duas cidades.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Assim fez ele: providenciou a pe\u00e7a e retornou para o Ubatumirim. Tinha pressa porque o barco passaria no dia marcado, para fazer o embarque da grande carga bananeira prevista. Foi quando aconteceu o desastre. Estranhamos a sua n\u00e3o chegada no dia esperado; nem no outro, nem no outro. Quando recebemos o telegrama do capit\u00e3o do barco bananeiro dizendo que Jean-Pierre n\u00e3o havia estado no Ubatumirim e que n\u00e3o tinha encontrado nenhuma carga de bananas na praia, desconfiamos que o pior j\u00e1 tinha acontecido. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Imediatamente entrei em contato com a f\u00e1brica CTI (em Taubat\u00e9) que tinha uma linha telef\u00f4nica direta com Ubatuba. Assim confirmei que o meu amado tinha desaparecido. Com o aux\u00edlio de amigos, funcion\u00e1rios da Mec\u00e2nica Pesada, chamamos o Batalh\u00e3o de Ex\u00e9rcito de Pindamonhangaba. Assim foram iniciadas as buscas pela Mata Atl\u00e2ntica. Ap\u00f3s uma semana s\u00f3 o avi\u00e3o foi encontrado: estava totalmente destro\u00e7ado.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>As buscas continuaram sem nenhum resultado. Desesperada, chamei uma equipe de paraquedistas de S\u00e3o Paulo especializada nesse tipo de busca. Em vinte e quatro horas encontraram o corpo de Jean Pierre na beira de um rio, cuja dist\u00e2ncia era, aproximadamente, quatro quil\u00f4metros dos destro\u00e7os do avi\u00e3o. O avi\u00e3o, modelo \u201cteco-teco\u201d, provavelmente foi jogado na mata por uma dessas fortes rajadas de ventos, t\u00e3o comum de ocorrer naquela \u00e9poca do ano. Foi essa a suposi\u00e7\u00e3o de um comandante das buscas.&nbsp;&nbsp;\u00c9 quase certo que tenha sido assim mesmo.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O avi\u00e3o caiu n\u00e3o muito longe da estrada, numa dist\u00e2ncia m\u00e9dia de cinco quil\u00f4metros. Ele se feriu e, segundo o laudo pericial, ainda sobreviveu uns cinco dias. Isso se deduziu pela grande dist\u00e2ncia entre os destro\u00e7os do avi\u00e3o e o corpo desfalecido. \u00c9 certo que teria se salvado se tivesse tomado a trilha certa: bastava seguir o lado da bifurca\u00e7\u00e3o que o conduziria \u00e0 estrada em vez de&nbsp;&nbsp;se enganar e acabar por embrenhar-se ainda mais na mata fechada. Mas&#8230; se \u00e9 f\u00e1cil de se enganar pelas veredas quando estamos s\u00e3os, imagine as grandes probabilidades para quem estava ferido e n\u00e3o estava ainda t\u00e3o familiarizado com a Mata Atl\u00e2ntica. Talvez tamb\u00e9m tivesse sido socorrido pelos ca\u00e7adores se fosse tempo de ca\u00e7adas. Mas n\u00e3o era. <\/em><em style=\"font-size: inherit;\">Entre o momento em que eu recebi o telegrama de Santos (do comprador das bananas) e o desfecho final (encontro do corpo), passaram-se vinte e um dias.&nbsp;&nbsp;Era o ano de 1961; meu marido tinha trinta e dois anos.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A mudan\u00e7a para a regi\u00e3o central de Ubatuba<\/strong><br><em>Depois disso tudo ficou muito dif\u00edcil. Imaginem uma vi\u00fava, com dois filhos pequenos, se deslocar de Taubat\u00e9 para o Ubatumirim num tempo de p\u00e9ssimos transportes, quando nem se sonhava em estrada de rodagem para o lado norte do munic\u00edpio. \u00c9 bom lembrar que a BR-101 s\u00f3 foi se tornar realidade quinze anos depois da trag\u00e9dia. No entanto, ainda eu estive alguns per\u00edodos de f\u00e9rias em nossas terras: uns dois ou tr\u00eas anos consecutivos. Depois tive que largar tudo, me dedicar ao trabalho e \u00e0s crian\u00e7as.<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\"><em>Depois da morte de Jean Pierre tentei conservar as posses. Foi muito dif\u00edcil, pois a emin\u00eancia da abertura da rodovia provocou uma verdadeira loucura. Compradores de todas as partes surgiram com malas repletas de notas de pouco valor, mas que pareciam uma fortuna para os ing\u00eanuos cai\u00e7aras; assim adquiriram as posses. N\u00e3o me sai da lembran\u00e7a um caso, de 1965, que muito me chocou: foi a troca de uma bel\u00edssima posse entre a praia e o rio, no Ubatumirim, por uma casinha popular inacabada no bairro da Estufa II, num terreno sem qualquer documenta\u00e7\u00e3o. <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\"><em>Depois vieram os grandes grileiros, chegando a ocupar \u00e1reas com homens armados. Para uma mulher sozinha era imposs\u00edvel enfrentar esses jagun\u00e7os. Assim, pensando nos meus filhos e j\u00e1 lecionando na Unitau, al\u00e9m de estar cansada de passar todas as minhas f\u00e9rias e alguns finais de semana nessa luta, deixei a casa da praia aos cuidados do Benedito Rolim. O Sert\u00e3o da Sesmaria do Ubatumirim ficou sob os cuidados de outro empregado chamado Melentino.<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\"><em>Quando o Dito Rolim se ausentou por quest\u00f5es particulares, a posse da praia foi invadida. Por\u00e9m, gra\u00e7as \u00e0 dedica\u00e7\u00e3o e compet\u00eancia do doutor Manoel Casal del Rey Aspera, ap\u00f3s seis anos de processo, conseguimos reaver a \u00e1rea e, num acordo com o pr\u00f3prio advogado, a trocamos por uma casa no bairro do Ten\u00f3rio. Ap\u00f3s reformas, n\u00f3s a alugamos na temporada.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Infelizmente n\u00e3o tive sorte com a Sesmaria, pois o meu caseiro Melentino tentou uma a\u00e7\u00e3o de usucapi\u00e3o, mas sem nenhum \u00eaxito. Apesar disso declarou-se dono da Sesmaria e, h\u00e1 anos, vem vendendo pequenas \u00e1reas a&nbsp;&nbsp;compradores de Ubatuba que sabem perfeitamente que o mesmo n\u00e3o \u00e9 propriet\u00e1rio. A Patr\u00edcia, minha primeira filha, assim que alcan\u00e7a os dezoito anos se volta para a quest\u00e3o. N\u00f3s temos os documentos, os registros dos funcion\u00e1rios. At\u00e9 indeniza\u00e7\u00e3o o Melentino recebeu.<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\"><em>Em 1992, Jean Pierre J\u00fanior, sendo engenheiro civil, decide vir morar em Ubatuba, iniciando a constru\u00e7\u00e3o de seu primeiro barco de pesca de camar\u00e3o e dedicando-se exclusivamente a essa atividade. \u00c9 casado; tem uma filha. Aqui nesta casa somos n\u00f3s: eu e Patr\u00edcia. Eu decidi, ap\u00f3s me aposentar pela Unitau, vir tamb\u00e9m para Ubatuba. Afinal o meu filho j\u00e1 estava morando aqui, al\u00e9m desta terra ter fascinado por tanto tempo a fam\u00edlia Patural.<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\"><em>Atualmente n\u00e3o pensamos mais em mexer na quest\u00e3o do Ubatumirim. Por\u00e9m, toda a documenta\u00e7\u00e3o est\u00e1 em nosso poder. H\u00e1 alguns anos estivemos na propriedade; deu pena ver tudo aquilo sem nenhum investimento, as pessoas que se apoderaram est\u00e3o vivendo numa situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria e n\u00e3o t\u00eam nenhuma perspectiva de vida. Voc\u00eas acreditam que eles continuam usando as duas casas que ainda foram constru\u00eddas por n\u00f3s, sem fazerem nada de melhorias? <\/em><em>Antes de concluir a minha fala preciso dizer que at\u00e9 um estudo do potencial das \u00e1guas das cachoeiras foi feito com muita dedica\u00e7\u00e3o pelo Jean Pierre; j\u00e1 tinha o projeto de energia gerada ali mesmo, tornando, certamente, uma fazenda-modelo. <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\"><em style=\"font-size: inherit;\">Para finalizar: assim que os meus pais souberam do acorrido, me escreveram pedindo que retornasse \u00e0 Fran\u00e7a com as crian\u00e7as. Eu pensei bem, refleti sobre a situa\u00e7\u00e3o da Europa e sobre os sonhos em que eu e meu marido tanto apostamos, me alegrei da nossa ousadia e coragem que se baseava num grande amor. Al\u00e9m do mais, eu estava empregada, ganhando razoavelmente bem e, as crian\u00e7as estavam estudando e se dando bem no Brasil. \u00c9 l\u00f3gico que eu pensei: se voltasse para l\u00e1 teria que recome\u00e7ar tudo de novo. E eu amo este pa\u00eds!\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Abaixo o reconhecimento do valor da fam\u00edlia Patural, um manifesto d<em>os vereadores em solidariedade \u00e0 Fam\u00edlia Patural (dona Silvia e seus filhos) por ocasi\u00e3o da trag\u00e9dia ocorrida.<\/em><\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_8384\" aria-describedby=\"caption-attachment-8384\" style=\"width: 780px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-8384 lazyload\" data-src=\"https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Homenagem-a-familia-Patural.jpg\" alt=\"\" width=\"780\" height=\"1074\" data-srcset=\"https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/ubatuba2\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Homenagem-a-familia-Patural.jpg 465w, https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/ubatuba2\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Homenagem-a-familia-Patural-218x300.jpg 218w\" data-sizes=\"(max-width: 780px) 100vw, 780px\" src=\"data:image\/gif;base64,R0lGODlhAQABAAAAACH5BAEKAAEALAAAAAABAAEAAAICTAEAOw==\" style=\"--smush-placeholder-width: 780px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 780\/1074;\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-8384\" class=\"wp-caption-text\"><em><strong>Homenagem \u00e0 fam\u00edlia Patural<\/strong><\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em 27 de abril de 2012, aos 90 anos, dona S\u00edlvia Polacco Patural nos deixou ap\u00f3s ter vivido um belo exemplo de cidadania, marcando sua contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 avia\u00e7\u00e3o de Ubatuba.&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Infelizmente o promissor agr\u00f4nomo Jean Pierre Patural, que entendia de tudo um pouco morreu cedo, quando o bananal come\u00e7ava o ciclo de exporta\u00e7\u00e3o e seu filho Jean Pierre acabara de nascer no territ\u00f3rio cai\u00e7ara. A Serra do Mar engoliu, junto com o avi\u00e3o monomotor montado num quintal de Taubat\u00e9, um jovem idealista repleto de sonhos. O tempo deu um fim ao trator, ao primeiro barco motorizado, e \u00e0quele que ocupa a <u>inscri\u00e7\u00e3o n\u00famero um<\/u>&nbsp;na nossa Col\u00f4nia dos Pescadores.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">A terra da fam\u00edlia Patural que se transformava numa refer\u00eancia econ\u00f4mica antes do advento do turismo foi grilada. Hoje, ap\u00f3s a morte de dona Silvia, seus filhos (Patr\u00edcia est\u00e1 na \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o e Jean Pierre no setor pesqueiro) continuam como mun\u00edcipes em Ubatuba. Assim se fizeram e continuam fazendo pelo Brasil e ao nosso munic\u00edpio: atrav\u00e9s do trabalho e da evolu\u00e7\u00e3o intelectual.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancia Bibliogr\u00e1fica:<\/strong><br><strong><a href=\"https:\/\/coisasdecaicara.blogspot.com\/search?q=ubatumirim\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/coisasdecaicara.blogspot.com\/search?q=ubatumirim<\/a><\/strong><\/p>\n<p><\/p>\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ubatuba tem algumas curiosidades impressionantes, como o caso do franc\u00eas Jean Pierre Patural que construiu seu pr\u00f3prio avi\u00e3o e fazia &hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":8374,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[458],"tags":[1210,1208,1205,20,1207,1209,4,296],"class_list":["post-7275","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-fatos-curiosos","tag-airplane","tag-aviao","tag-curiosidade","tag-litoral","tag-paturral","tag-plane","tag-ubatuba","tag-ubatumirim"],"aioseo_notices":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/ubatuba2\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Avi\u00e3o-constru\u00eddo-por-morador-de-Ubatuba.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/ubatuba2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7275","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/ubatuba2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/ubatuba2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/ubatuba2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/ubatuba2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7275"}],"version-history":[{"count":38,"href":"https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/ubatuba2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7275\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11391,"href":"https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/ubatuba2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7275\/revisions\/11391"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/ubatuba2\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8374"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/ubatuba2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7275"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/ubatuba2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7275"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.curiosidadesdeubatuba.com.br\/ubatuba2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7275"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}