História da Canoa de Voga e da “Cavalo Grande”

História da Canoa de Voga e da “Cavalo Grande”

Você conhece a história da canoa de voga Cavalo Grande? A canoa de voga é o tipo de canoa mais citado por diversos autores, em muitos relatos e estudos de várias épocas. Esta recorrência talvez se deva não só ao gigantismo de suas dimensões, que muito impressionavam os cronistas por serem esculpidas em um só tronco de árvore, mas também pela grande importância das vogas, já que eram os únicos meios de ligação disponíveis entre os caiçaras e os grandes centros, levando e trazendo mercadorias e “quitandas”, garantindo a sobrevivência das comunidades.

Estas viagens em meio a ventos e tempestades criaram histórias de eventos fantásticos e heroicos que atravessaram gerações até os dias de hoje. Os “panos” permitiam encurtar as viagens com o vento a favor. Com o vento contra, as mezenas (vela latina colocada na popa), entrava em ação, sendo responsável pelo rumo da canoa em ventos laterais. Quando não havia vento, então entravam em ação os remos de voga. Até hoje o nome “canoa de voga” está associado e algumas vezes confunde a tipificação da embarcação que muitos definem como Canoa Caiçara.

História da Canoa de Voga e da “Cavalo Grande”
Canoa de Voga – Ano de 1920 – Foto de Edson da Silva

História da Cavalo Grande
Há muito tempo, no início do século XX, quando um grande mestre de canoas perdeu a vida no mar, em uma época que não tinha estrada aberta entre Ubatuba e Santos, o comércio entre estas duas cidades só era feito de canoa de voga, enormes com capacidade de carregar muitas e muitas “pipas” de farinha de mandioca e grande quantidade de cachos de bananas.

Voga, na verdade, é o nome dos grandes remos que só eram usados nas maiores embarcações. Daí o nome “canoa de voga”. Essas embarcações tinham proporções avantajadas, ou seja, atingiam de 60 a 100 palmos de comprimento (mais de 20 metros), por oito a dez de boca (cerca de 2,20 metros de largura).  Transportavam até 6.700 litros de mercadorias e ainda levavam seis ou oito passageiros, além da tripulação, que era formada por quatro, cinco ou até oito remadores, mais o patrão. As canoas imensas eram importantíssimas, num tempo em que o mar era a nossa principal via de acesso, às cidades litorâneas vizinhas. É preciso lembrar que a rodovia existente entre Ubatuba e Caraguatatuba é de 1950.

História da Canoa de Voga e da “Cavalo Grande”
Canoas em Ubatuba – Imagem de Edson da Silva

Existiam embarcações maiores, feitas em estaleiros, mas tinham pouca praticidade aos pequenos empreendedores porque seguiam um calendário determinado, paravam em vários portos. A solução era canoa de voga, “feita de um pau só”. Eram nos bancos que, completamente esticados, os homens descansavam enquanto tocavam os ventos favoráveis no “traquete” (conjunto de mastro e vela de pano “quadrada”, armada no banco da proa da canoa) e na “mezena” (vela de formato triangular, armada no banco do meio da canoa, que se enverga em ocasião de mau tempo). Imagine a largura dessas tais canoas! Até uma caixa de areia, onde era montado um fogão de “tacuruba” (as três pedras sobre as quais se apoia a panela quando levada ao fogo), fazia parte do lastro da embarcação. “Era para fazer um café, preparar uma comida rápida. Desse jeito ninguém desembarcava e a viagem rendia mais”.

Testemunhos históricos de remadores que fizeram aquelas aventuras ilustram as dificuldades enfrentadas e a grandiosidade dessas aventuras, com o carregamento de muitas mercadorias. Tudo era levado a Santos para depois retornar com mercadorias, para negociar na vila de Ubatuba, muitos foram os corajosos caiçaras que fizeram este trajeto. José Vieira Serpa, navegante ubatubano de tradição, era considerado o melhor mestre nas viagens entre Santos, Ubatuba e Angra dos Reis. Além dos conhecimentos técnicos, também conhecia muito do tempo e das condições para a navegação. Além disso, “pressentia coisas de longe”, o tempo ruim. Dele partia o comando sobre os oito tripulantes da grande canoa de voga Cavalo Grande, que entrou para a história com uma tragédia.

História da Canoa de Voga e da “Cavalo Grande”
Canoa Antiga – Ubatuba

Cavalo Grande
A Cavalo Grande era conduzida pelo mestre José Vieira Serpa, mestre de muita experiência nas coisas do mar e observador experiente das tempestades, que pudessem de uma hora para outra afundar uma embarcação. Certa vez retornando de Santos, a Cavalo Grande aportou em uma praia em São Sebastião (alguns dizem que aportou em Ilha Bela), para descansar seus valentes remadores e tomar um “aperitivo” no armazém, antes de continuar aquela jornada. Já estava de tardezinha, e em algumas horas já iria escurecer, mestre Vieira ainda conversava com o proprietário do local quando foi abordado por um dos remadores, que foi explicando que todos os companheiros estavam querendo retornar prontamente a Ubatuba, pois dali a alguns dias seria dia de São João e teria uma festa na Barra Seca e ninguém queria perder o Xiba.

Mestre Vieira contrariado saiu do armazém, observou o horizonte sem nenhuma nuvem naquele instante, e decretou que ficariam aquela noite naquela praia e que sairiam no dia seguinte. Ouvindo aquilo, o remador foi dizer a ordem do mestre aos outros companheiros, e depois de um tempo retornou, com o restante da tripulação, que novamente disseram que queriam retornar ao mar, pois o mar estava tão calmo, por que não navegar? Muitos dos outros caiçaras que também ali estavam não entendiam o temor do mestre Vieira, pois o tempo estava tão calmo. Mestre Vieira com um acesso de raiva disse a todos: “se vocês querem navegar então vamos navegar, mas não esperem vida fácil nesta noite” e saiu do armazém pisando duro. Os caiçaras que estavam na praia contam que, ao embarcar contrariado, assim se expressou o competente mestre canoeiro: “Eu morro, mas vocês não vão ficar para contar história”.

A Canoa de Voga Cavalo Grande saiu daquela praia de São Sebastião no fim de tarde do mês de junho, em direção à Ubatuba e nunca mais foi vista. Pois na madrugada daquela noite, entrou uma tempestade com rajadas de vento sudoeste fortíssimas, matando todos tripulantes e o único vestígio da embarcação, foi encontrada na Ilha Grande no Rio de Janeiro, dias depois em uma de suas praias…um pedaço de madeira escrito: “lo Grande”.

Fontes das Informações
– Parte do trecho inicial extraído do Dossiê Canoa Caiçara, para registro de bem cultural imaterial junto ao IPHAN.
http://canoadepau.blogspot.com/2012/08/o-traquete.html
– Narração da história da Cavalo Grande: Neto @veleiro.enseadadeubatuba