Lenda da Cruz de Ferro da Serra

No percurso da Serra da Rodovia SP-125 (denominada Rodovia Oswaldo Cruz), que liga Ubatuba a Taubaté, entre a cidade de São Luiz do Paraitinga e Ubatuba, às margens da estrada, há uma Cruz de Ferro fincada, onde as pessoas vão acender velas, pois dizem que ela é milagrosa. Essa cruz é oriunda de um drama de uma família caipira.

Cruz de Ferro na Serra de Ubatuba

Juca Mineiro, nascido em Minas, na cidade de Alfenas, casado com Mariazinha, veio como ave de arribação morar num vale, entre a cidade de Cunha e São Luiz do Paraitinga, por volta de 1897, onde conseguiram um pedaço de terra. Ergueram lá um ranchinho. O casal vivia bem, tiveram um filho a quem deram o nome de João Camargo como o pai, mas apelidaram-no de Gorinho. Mariazinha era uma cabocla bonita, cabelos negros e longos desciam macios sobre os seus ombros, a pele cor do jambo maduro, os olhos castanhos claros (que ficavam meio esverdeados à luz do sol).

Quando Juca Mineiro a levava à cidade, seja a de Cunha ou de São Luiz, todo mundo parava na rua para admirar sua formosura, era realmente a cabocla mais linda da redondeza. Em um desses passeios por Cunha, Basílio, um sujeito de maus bofes (falavam que ele já tinha várias mortes no costado), pistoleiro de aluguel dos coronéis de fazenda, muito comum naquela região, ficou deslumbrado e perguntou ao dono do armazém onde Juca Mineiro trocava os seus produtos do sítio com o comerciante.

A mineira de Alfenas não dava bola pra ninguém e Juca a amava muito, porém Basílio de Campos, malandro, desejava a mulher de Juca. Depois de muitas visitas ao sítio enquanto Juca estava na roça, convenceu Mariazinha a ir embora com ele. Juca procurou a mulher em toda a região até que um tropeiro lhe disse tê-la visto com Basílio na cidade de Guaratinguetá. Juca sofreu bastante e disse ao seu filho Gorinho durante a sua criação, que sua mãe havia morrido e o mesmo pensava que por isso o pai era triste.

Um dia em Aparecida, Juca viu Basílio e o provocou com um esbarrão. Quis matá-lo com uma faca, mas desistiu, Não queria que Gorinho carregasse a marca de filho de prostituta e de assassino. Decidiu que se mudaria para Ubatuba, em um sítio, e venderia as terras de Cunha e no litoral, Gorinho nunca saberia da mãe, pensava Juca.

Descendo para Ubatuba, no alto da serra com seu filho, parou e disse:
– Gorinho, aquele azul lá embaixo é o Oceano Atlântico, mar de Ubatuba, lá é que vamos morar. Peço que você jure nunca mais vir para os lados da serra. O menino confuso não entendeu…
– Por que pai?
– Não pergunte nada. Promete?
– Sim pai.

Nesse momento um homem inesperadamente invadiu o caminho, disparou um tiro de garrucha no peito de Juca e desapareceu no mato. Agonizando e sabendo que ia morrer, Juca contou toda a sua história ao filho, que nesse momento tinha 12 anos. O mineiro após contar tudo, disse as últimas palavras:

– Vingue o seu pai. Deus cuide de você meu filho. – Disse morrendo.

Gorinho enterrou ali seu pai, no alto da serra (hoje Rodovia Oswaldo Cruz) e fixou no lugar uma cruz de madeira e jurou trazer ali um dia a prova de sua vingança. Onze anos depois em Ubatuba, Gorinho com 23 anos vê Basílio. Sabendo que Basílio ia subir a serra naquele dia, partiu antes e o esperou perto da cachoeira grande da serra. Eram cinco horas da tarde quando Gorinho viu na curva três mulas e atrás, Basílio, distraído num cavalo baio.

Ao passar perto da cachoeira para pegar água, foi surpreendido por Gorinho:
– Desce do cavalo. Vai morrer agora miserável! Diz o jovem cheio de ira.
– Não tenho dinheiro. Pode levar as mulas.
– Como está minha mãe?
– Tua mãe? Quem é tua mãe?
– Aquela que você roubou do meu pai.
– É você Gorinho? Ela…

Gorinho não o deixou terminar e varou-lhe o coração com a faca do pai. Basílio morreu fitando Gorinho que com a faca arrancou tiras da camisa com o sangue ainda escorrendo e foi até a cruz. Lá chegando, ajoelhou-se diante dela e disse: – Pai! Hoje eu lhe vinguei. Aqui está o sangue quente de Basílio.

Colocou os farrapos ensanguentados sobre a cruz e a beijava quando alguns viajantes vinham em sua direção, maravilhados e gritando:
– Milagre! Milagre! Milagre!…

A madeira da cruz se transformou em ferro e brilhava coberta de flores reluzentes e perfumadas que antes eram os farrapos cheios de sangue que ele colocara ali. Desde esse tempo a Cruz de Ferro está na serra que vai para o Vale do Paraíba. Um bando de urubus levou pelo ar o corpo de Basílio para dentro da mata e lá o devoraram. Até hoje a Cruz de Ferro floresce quase o ano inteiro.

Cruz de Ferro

Fontes de informações e créditos:
https://ubatubense.blogspot.com.br/2014/08/lendas-e-contos-de-ubatuba-cruz-de.html
https://www.ubaweb.com/ubatuba/cultura/index_cul_masc.php?cult=lcferro

Partes do texto reescrita por Paulo Roberto Andrade, professor e membro da Academia Ubatubense de letras e
postado por Academia Ubatubense de Letras