Trilha Camburi – Trindade

A trilha Camburi – Trindade é interessante, pois atravessa a divisa entre os estados de São Paulo e Rio de Janeiro, e é desafiadora, não só pela complexidade do percurso mas também pela logística de deslocamento para voltar ao ponto inicial. O percurso por trilha tem cerca de 7 Km, e o caminho por estrada tem aproximadamente 17 Km.

Trilha Camburi – Trindade

A trilha inicia-se na Praia do Camburi (extremo norte de Ubatuba) e termina dentro do Camping Casa Torta, na Praia do Cachadaço, já em Trindade – Paraty. O percurso de aproximadamente 5 horas, cruza a divisa SP – RJ, e é todo feito dentro da Mata Atlântica, fechada e próximo ao costão.

Realizando a trilha no sentido inverso, iniciando por Trindade, é um pouco mais difícil, pois o início dela é uma subida longa. A trilha não é tão aberta, não sendo recomendada para quem não tem noções de navegação, pois como é mata fechada, sua orientação é apenas com o auxílio de bússola | rastreamento via satélite em tempo real.

Como sempre recomendamos a contratação de um guia credenciado, e para esta trilha que seja  experiente e que conheça bem a região!

Depoimento de @snts.cris (Cristiano Santos) – trilheiro e mateiro.
“Entramos na trilha, e logo de início nos deparamos com uma cachoeira que faz parte da Cachoeiras dos 3 Poços. Caminhamos pela trilha sem muitas dificuldades, mas do meio pra frente deparamos com várias bifurcações em várias direções. Percebemos que a trilha não estava tão limpa como no início, e tinha várias árvores caídas obstruindo a passagem da trilha, mas tudo corria como esperávamos, no caminho encontramos um mirante maravilhoso que dá vista para a Praia de Picinguaba.

A partir do meio da trilha o percurso  começou a ficar difícil devido a mata estar fechada. Em alguns pontos tivemos que parar e pensar qual caminho continuar para não se perder, paramos uma vez para lanchar e nos hidratar.

Mas o pior foi quando estávamos quase no final da trilha, em um lugar que parecia uma “fazenda de samambaias”, o mato e as samambaias estavam muito grandes, e perdemos a direção da trilha para continuar. Procuramos a continuação da trilha mais ou menos por meia hora, paramos e pensamos um pouco em qual direção iriamos, pensamos até em voltar para o Camburi.

Trilha Camburi - Trindade
Marco de concreto – divisa entre SP – RJ

Resolvemos abrir um caminho novo em uma descida até um riacho que escutávamos lá de cima. Conseguimos chegar lá e seguimos pelo riacho até que encontramos um poço chamado Poço do Sombrio (um morador local que nos falou o nome).

Neste poço ficamos por cerca de meia hora relaxando em sua água fria, e ao continuar a trilha logo começamos a escutar o barulho do mar e assim chegamos a Praia do Cachadaço, concluindo nosso percurso da travessia da Trilha Camburi – Trindade”. 

Depoimento do trilheiro Renato Gamba Romano 
A ideia de fazer essa trilha surgiu de um relato publicado pelo montanhista Rafael Santiago sobre a travessia Camburi-Trindade, um relato muito polêmico nos comentários pois algumas pessoas diziam ter se perdido na trilha, que ela era impossível de se completar e outras coisas, o que foi deixando ela cada vez mais interessante para se fazer.

Dados da Trilha
Distância percorrida: 7,6 Km.
Duração: 5h47min.
Altitude Min./Max. Atingida: 6 metros / 410 metros.
Elevação (subida/descida): 523 metros / 523 metros.

“Saí da Praia do Camburi, exatamente às 6h07min, o clima estava bem quente, bebi bastante água e abasteci 1,5 litros de água no meu cantil. Subi a estrada de terra local  em direção a Rodovia Rio Santos até a Rua Vitória Filipa dos Santos, uma rua de solo bem acidentado que vai em direção ao morro a direita da estrada. Uns 300 metros à frente cruzei o rio que dá origem a Cachoeira dos 3 Poços, cruzei e fui adiante. A rua começa a se estreitar muito e subir com uma alta inclinação, quando a rua para de subir finalmente chega-se ao começo da trilha.

A trilha no começo estava bem demarcada e larga, ela já começa com uma subida considerável rumando em direção a Trindade. Cerca de 800 metros depois ela começou a ficar muito fechada, gastei muita energia e perdi muita água em forma de suor devido ao calor e ao esforço que estava fazendo devido as tentativas de abrir mata (isso realmente me cansou). A mata estava muito fechada, e para todo lado que eu olhava via uma possibilidade de trilha, os bambus não paravam de enroscar em mim e as vezes era até difícil cortá-los com o facão pois o espaço estava cada vez mais limitado, a alta inclinação ali também contribuía para o esforço. 

A trilha segue bem aberta por 1.8 km até uma região bem lamosa onde encontra-se o primeiro sinal de água. Como eu havia perdido e consumido bastante água devido ao meu esforço, reabasteci meu cantil nas poças de água que haviam por ali (que eram de água corrente que minava do chão) pois tinha receio de que os próximos pontos de água indicados pelo trilheiro Rafael estivessem secos.

Menos de 100 metros à frente de onde coletei a água há um riacho com uma água bem melhor para se coletar. A trilha fica bem confusa nesse lugar, e a partir daí, vários trechos com arvores caídas e crescimento “excessivo” de plantas dificulta muito a navegação. Havia uma cobra no riacho, não dei muita atenção para ela mas preferi pegar água mais para cima (a coitada estava muito assustada comigo e tentava correr loucamente pra longe de mim).

Aproximadamente 1,3 km separam o riacho do marco da divisa dos estados. Este trecho estava muito coberto por mata e diversas vezes a trilha não está visível. Em um raio de aproximadamente uns 300 metros do marco da divisa não havia vestígios nenhum de trilha, nesse ponto a navegação foi totalmente por instrumentos. A visão do marco é uma coisa sensacional na trilha, eu estava andando emaranhado no mato quando de repente lá estava ele, um bloco de concreto de mais ou menos uns 60 centímetros encravado no meio da mata!

Usando o GPS, consegui reencontrar a trilha em um vale a esquerda, mas logo cheguei no ponto em que o Rafael havia descrito um crescimento tão grande de samambaias que havia coberto toda a trilha, realmente estava lá. Um mar de samambaias intransponíveis, não dava nem para ver o solo, quanto mais a trilha. Tentei seguir o rumo do GPS abrindo mata com o meu facão, mas me vi cada vez mais emaranhado. Foram mais ou menos uns 25 minutos tentando abrir mata e eu não havia avançado nem 200 metros. Quando eu já estava ficando exausto, cai dentro do mar de samambaias, próximo as raízes das plantas, a massa de folhas sobre minha cabeça estava tão densa que estava até escuro ali. No fundo conseguia ouvir um barulho de riacho, então desisti de tentar seguir a trilha e rolei meu corpo ribanceira a baixo em direção ao som da água. (Recomendo neste trecho não tentar seguir a trilha do Rafael pois ali ela não existe mais). Depois de rolar um pouco cheguei em um barranco, desci e encontrei o riacho.

Depois de um descanso na beira do rio, observando as curvas de nível da carta topográfica do GPS (obtida pelo opensource) cheguei à conclusão de que aquele rio ia direto para a praia do Cachadaço. Comecei a descer ele e depois de 300 metros avistei canos de captação de água. Segui os canos descendo o rio e, depois de uns 700 metros, cheguei na maravilhosa praia, bem na cara do camping que eu queria ficar.”

A trilha em si não é impossível como diziam, mas não é uma aventura recomendada para iniciantes. É preciso se preparar muito bem pois não há sinal de telefone nem rota de fuga durante 90% da trilha. No sentido Camburi-Trindade à direita (cerca de 1 km) terá sempre costões rochosos inóspitos e o mar, e à esquerda uns 2 km subindo os morros tem a rodovia Rio Santos, e no trecho de 7 km de trilha não há nenhuma vila, estabelecimento ou construção que possa te ajudar ou abrigar. Se decidir faze-la, prepare-se para no mínimo um dia de comida e água caso tenha que se abrigar devido a alguma adversidade qualquer. 

Importante:
Para realizar trilhas, siga algumas regras básicas: Preserve a natureza, não jogue lixo na trilha, não maltrate os animais, não entre em propriedades particulares, recolha seu lixo e dê o destino certo para ele, deixe apenas pegadas, evite fazer barulho, desfrute dos sons da natureza, cuidado para não causar incêndios na floresta, planeje bem sua caminhada e informe a alguém sobre seu passeio, proteja-se do sol, mosquitos, borrachudos e mantenha-se sempre na trilha.

Se a caminhada for extensa é indispensável alguns acessórios como um calçado confortável, calça comprida leve e macia, camiseta de manga comprida por conta do capim navalha, boné, mochila impermeável com repelente, protetor solar, máquina fotográfica, muda de roupa seca, capa de chuva, agasalho, apito, toalha, lanterna, além do lanche, água e barrinha de cereal por exemplo. Preste atenção as passadas, e desníveis causados por erosões, devido às chuvas, e a utilização de um “cajado” ajuda bastante a diminuir os impactos.

Também esteja alerta para abelhas, porcos do mato e a presença de cobras peçonhentas que são muito comuns em Ubatuba e na região da Mata Atlântica, tais como a jararaca (Bothrops jararaca), coral (Micrurus Corallinus), jararacuçú (Bothrops) e urutú-cruzeiro (Bothrops alternatus), que costumam ficar no meio da trilha, especialmente em lugares que bate sol.

Sempre recomendamos fazer trilhas acompanhado de um Guia Credenciado, pois além de garantir mais segurança, também aproveitamos para conhecer melhor a história do local.

Lembre-se: da natureza nada se tira, além de fotos e nada se leva, além de boas lembranças!!!

Fontes de consulta:
https://www.mochileiros.com/topic/19774-travessia-camburi-trindade-ubatuba-spparaty-rj/

http://equiperomoaldo.blogspot.com/2016/03/travessia-camburi-trindade-de-camburi.html

Detalhes da trilha no Wikiloc: https://pt.wikiloc.com/trilhas-trekking/travessia-camburi-sp-trindade-rj-dez-2015-solo-renato-gamba-equipe-romoaldo-12615324