Parque Estadual da Ilha Anchieta

O Parque Estadual da Ilha Anchieta (PEIA) é um dos principais atrativos turísticos de Ubatuba, tanto pela importância histórica com as Ruínas do Presídio, suas belas praias e trilhas, seus excelentes pontos de mergulho e pela Mata Atlântica preservada.

Ilha Anchieta

Localizada muito perto do continente, apenas à 600 metros, chamada antigamente de Ilha dos Porcos, teve a atual denominação de Ilha Anchieta dada em 1934, como parte das festividades, do quarto centenário de nascimento do padre José de Anchieta. O acesso é fácil por barco, lancha, SUP ou escuna, sendo que o passeio por escuna dura em média 4 horas. As saídas são do Píer do Saco da Ribeira, da Praia da Enseada, do Itaguá ou do Lázaro, e no caminho até a ilha é comum receber a visita de golfinhos que acompanham a embarcação.

Ilha Anchieta - Chegada

A Ilha Anchieta é a segunda maior ilha do Estado de São Paulo e o Parque possui cinco trilhas terrestres, uma subaquática e abriga as ruínas da antiga Prisão de Segurança Máxima do Estado de São Paulo. Está em uma área de proteção ambiental criado através do decreto de lei 9.629 de 29 de Março de 1977 do Estado de São Paulo e administrado pelo Instituto Florestal, órgão vinculado à Secretaria Estadual do Meio Ambiente. É uma das áreas protegidas no estado de maior importância dada sua riqueza histórica e natural que compõe seu cenário.

Ilha Anchieta - Praia do Presídio
Praia do Presídio

Tem-se a informação que Graciliano Ramos, também ficou preso na Ilha Anchieta, antes de seguir para Ilha Grande (Instituto Penal Cândido Mendes), local onde escreveu uma de suas obras: “Memórias de um Cárcere”, um livro de memórias, publicado postumamente, em setembro de 1953, em quatro volumes. O autor não chegou a concluir a obra, faltando o capítulo final. Graciliano havia sido preso em 1936 por conta de seu envolvimento político com a chamada Intentona Comunista, de 1935. A acusação formal nunca chegou a ser feita e Graciliano foi preso sem provas e sem processo.

A Reserva ecológica
A Ilha Anchieta conserva uma floresta exuberante, com diferentes estágios de formação, restingas, campos de samambaias e campos antrópicos. A vegetação é rica, podendo-se encontrar árvores como a amendoeira-da-praia, a palmeira-leque e ainda o coco-da-baía. 
Com uma área de 826 hectares (8,26 km²), a ilha abriga uma pequena fauna, a maioria introduzida na Ilha em 1983 pelo Zoológico de São Paulo, cerca de 16 espécies de animais, sendo que a população de saguis, capivaras e quatis cresceu de forma desequilibrada, levando os biólogos e pesquisadores a pensar em uma forma de manejo desta espécies, que sempre estão atrás dos biscoitos dos turistas.

Ilha Anchieta - Macacos

Levantamentos científicos constataram a presença de 72 espécies de aves, entre as quais: sabiá, juriti, tangará, tiê-sangue, coleirinho, saíra, bem-te-vi, atobá, gaivota e beija-flor. Nas águas cristalinas que cercam a ilha são encontrados cardumes de tainhas, robalos, carapaus, sardinhas, peixes voadores, toninhas (golfinhos) e tartarugas marinhas, protegidos por um polígono de interdição de pesca de qualquer modalidade. Existe uma grande população de cobras jararacas na ilha, sendo necessário utilizar botas ao caminhar pelas trilhas, e uma outra curiosidade é a presença de enormes Vespas Caçadoras, que apesar de inofensivas, impressionam pelo tamanho.

Ilha Anchieta - Vespa

No Parque Estadual é proibido acampar, pescar, retirar do mar ou dos costões qualquer espécie de flora ou fauna marinha, colher mudas, cortar plantas, levar animais domésticos e abrir caminho pela mata. Estando na ilha é possível encontrar o pessoal do projeto “Filhos da Ilha“, que são familiares, amigos e admiradores dos que viveram na ilha e estavam no dia da rebelião, e eles te contarão fatos que marcaram para sempre a história da ilha.

Mergulho na Ilha Anchieta
A Ilha Anchieta é considerada um dos melhores pontos de mergulho do Brasil. A caça e a pesca são proibidas, no entanto, o mergulho contemplativo é liberado, e a riqueza da fauna, flora e grandes peixes de passagem permitem uma bela viagem pelo mundo submarino, bastante procurada para fotos submersas. A profundidade varia entre 3 e 12 metros e a temperatura média da água fica entre 20°C e 28°C.

Trilha Subaquática Ilha Ancjhieta

No verão costumam ocorrer quedas bruscas na temperatura, chegando até 15°C, portanto, durante o mergulho, o uso de roupas isotérmicas é recomendável o ano todo. A visibilidade varia muito em função de correntes e condições climáticas, indo de 2 a 10 metros. O fundo é composto de costões rochosos e areia. Fauna e flora são abundantes, podendo-se observar corais cérebro, esponjas, algas, tartarugas, budiões, arraias-prego, garoupas, badejos e peixes coloridos, principalmente na Ponta Sul.

Trilha Subaquática – Extensão 350 metros (ida)
Esta trilha é uma atração na Ilha Anchieta, realizada desde 2001  conta com atividades de interpretação ambiental em três tipos: Trilha de Mergulho Livre, Trilha dos Ecossistemas e Trilha do Aquário Natural.

Antes de entrar na água, os participantes recebem orientações para evitar impactos ambientais durante a prática. No caso da Trilha de Mergulho, os monitores ministram treinamento sobre técnicas e como usar o equipamento.

Trilha Subaquática – Foto de Priscila Saviolo

As atividades de mergulho são realizadas ao longo do Costão Rochoso entre as Praias do Presídio e Engenho. Avistam-se estrelas do mar, coral cérebro, algas e muitos peixes. É uma atividade incentivada pelos instrutores do parque que permite ver com detalhes a rica fauna e flora da costeira e aprender junto com os pesquisadores a sua importância. Interessante é o flutuador que é utilizado durante esta trilha, construído com garrafas pets recicladas e que é muito apropriado para a atividade, uma perfeita boia de sustentação, além de ser ecologicamente correto.

Praias da Ilha Anchieta
A ilha possui sete praias (Praia do Engenho, Prainha de Fora, Presídio, Sul, Leste, Palmas e Sapateiro) e existem várias trilhas para caminhadas. Costões cercados de Mata Atlântica levam à Praia do Sul. A trilha da prainha tem 530 metros de extensão e liga a “Praia do Presídio” à “Praia do Engenho”, onde grandes rochas formam uma piscina natural no mar.

Ilha Anchieta - Mapa
Visão Geral da Ilha Anchieta – Fonte: Google Maps

Praias do Presídio e do Sapateiro
As Praias do Presídio e do Sapateiro são as praias de recepção da Ilha, o píer usado para o embarque e desembarque dos visitantes é o que delimita suas fronteiras. Convém mencionar que no passado, não existia a divisão entre as Praias do Presídio e a do Sapateiro, era conhecida apenas como Praia do Presídio. 

Praia do Presídio
Praias do Presídio e Praia do Sapateiro divididas pelo píer

Estas praias são as primeiras avistadas pelo turista, ao chegar de escuna no píer, da Ilha Anchieta. Elas têm areias amareladas, são praias de tombo onde não é aconselhável o nado para crianças, porém praias belíssimas de águas cristalinas e areia bem límpida.

Praia do Presídio
Praia do Presídio

Todas as construções da Ilha ficam em suas imediações: o centro do atendimento ao turista, por exemplo, que funciona como guia e o museu da ilha, logo atrás do centro, onde estão localizadas as ruínas do antigo presídio.

Ilha Anchieta - Praia do Presidio
Praia do Sapateiro

O local encanta tanto pela beleza, como pela história da rebelião de presos ocorrida em 1952, o que levou a desativação do presídio que ali funcionava.

Praia do Engenho
A Praia do Engenho, também chamada de Prainha, está localizada cerca de 530 metros à esquerda de quem desembarca no píer, por uma trilha fácil de 10 minutos de caminhada. No caminho temos a possibilidade de subir no Mirante do Boqueirão com visual fantástico da baía principal da ilha.

Ilha Anchieta - Praia do Engenho
Praia do Engenho

As águas da Praia do Engenho são límpidas e tranquilas e propícias para receber as mais variadas embarcações trazendo visitantes e pesquisadores.

A praia tem pouca extensão, areia de cor amarela, Mata Atlântica ao fundo e outro destaque é a ducha de água doce canalizada diretamente da montanha da ilha.

Ilha Anchieta - Ducha na Praia do Engenho
Ducha com água doce

No canto direito da praia, temos o acesso a uma prainha protegida do mar por pedras enormes, formando uma piscina natural de água salgada. É um local de concentração dos visitantes que se encantam com os peixinhos. Vale a pena mergulhar nestas águas e curtir a beleza preservada deste pedaço de paraíso.

Praia das Palmas
A Praia das Palmas que também é chamada de Praia Grande da Ilha Anchieta, é a mais extensa de toda a ilha, uma enseada de águas tranquilas que banham sua orla, e está localizada à direita de quem desembarca na ilha. São apenas dez minutos de caminhada do pier até lá em uma trilha plana e agradável, onde você pode avistar diversos animais da fauna local.

Praia das Palmas - Ilha Anchieta
Praia das Palmas

A praia fica em uma pequena baía de águas esverdeadas calmas e cristalinas, estreita faixa de areia branca, com costeiras rochosas e muitas pedras espalhadas. Temos muitas árvores no entorno sombreando a orla e é possível observar muitos peixes nos recifes. A Mata Atlântica ao fundo da praia compõe o belíssimo cenário natural. O mar com águas tranquilas propicia fácil atracamento de embarcações, que escolhem o lugar para passar o dia e curtir a natureza.

Praia do Sul
A Praia do Sul tem seu acesso de barco ou estando na ilha, na área do presídio por exemplo, é possível o acesso por uma trilha se inicia logo após passar pela Praia das Palmas, uma trilha interessante por dentro da Mata Atlântica e bem sinalizada.

Placa no início da trilha (Praia das Palmas) para a Praia do Sul

A trilha para a Praia do sul se inicia logo após passar pela Praia das Palmas, são cerca de 1300 metros até chegar ao destino final. O esforço que não é grande é recompensador.

A Praia do Sul é uma pequena praia de águas verdes, pouco frequentada já que a grande maioria dos visitantes não se arrisca na trilha, e este percurso só pode ser feito com a presença de monitores do parque, ou com uma autorização especial.

Praia do Sul

A trilha que já era utilizada antigamente pelos pescadores e moradores da região, foi muito devastada no passado e hoje passa por um processo de recuperação ambiental.

É um percurso que está documentado com capacidade de carga e pontos interpretativos da Mata Atlântica, restinga, lendas, histórias e grande variedade de fauna que é fonte de estudo para as escolas que visitam o Parque Estadual da Ilha Anchieta.

No meio da trilha há um pequeno desvio que leva até um mirante com vista para toda a enseada das Palmas.

Ao chegar à esta praia paradisíaca, observamos as águas cristalinas do mar, vegetação restinga e abundante vida marinha, sendo um convite para o mergulho livre.

Praia do Leste
Seu acesso é somente de barco e esta praia é sinônimo de sossego, ótima para quem quer relaxar e dar um mergulho. Uma curiosidade é que em 1997, uma estátua em tamanho natural, em homenagem ao cientista francês e “pai do mergulho”, Jacques Cousteau, foi colocada a nove metros de profundidade próxima ao costão rochoso na Praia do Leste, pela Associação das Operadoras de Mergulho de Ubatuba.

Praia do Leste – Imagem de @brunoamirimagens

Posteriormente a estátua foi retirada para restauração, e encontra-se na Praça da Baleia, próxima a região central de Ubatuba. Outra curiosidade desta praia é que em 1850, a Inglaterra montou um forte neste local, uma base da marinha inglesa, para combater o tráfico de escravos (os navios negreiros). Procurando com cuidado, é possível achar ruínas deste forte.

Mirante do Boqueirão
Este mirante está localizado entre as Praias do Presídio e a do Engenho. Subindo uma pequena escadaria, estamos em uma posição privilegiada onde avistamos as Praias do Presídio, das Palmas e a Ponta da Espia que é a menor distância entre a Ilha Anchieta e o continente (cerca de 500 metros).

Ilha Anchieta - Mirante do Boqueirão

A Geologia explica que milhares de anos atrás a Ponta da Espia estava ligada ao que é hoje a Ilha Anchieta, e formava um “continuum” de Mata Atlântica. Devido ao aumento do nível do mar, hoje a conexão não é visível, ocorrendo na parte submersa e através de animais de voo longo (aves e morcegos), que transitam entre a ilha e o continente.

Mirante do Boqueirão Ilha Anchieta
Vista do Mirante do Boqueirão

Trilha do Saco Grande – Extensão 2.830 metros (ida e volta)
A caminhada começa na praia do presídio percorrendo uma área direcionada a estudos e pesquisas e segue em direção às ruínas do antigo quartel (onde foram mortos soldados e civis na rebelião de 1952), pela Vila Militar e a antiga Olaria SEIA “Serviço de Engenharia da Ilha Anchieta”. A vegetação está se regenerando e ocupando as casas da antiga vila militar, trazendo de volta os primeiros moradores da mata. Ao final da trilha no costão rochoso deparamos com um mirante das ilhas da região e do mar aberto. Em dias claros é possível avistar tartarugas marinhas em seu habitat natural. Na volta não deixe de tomar uma ducha (Ducha do Maneco) reservada aos que fazem o passeio.

História da Ilha Anchieta, o Presídio, Rebelião, Fatos e Lendas
O primeiro “dono” desta ilha que se tem notícia, foi o Cacique Cunhambebe, o mais poderoso chefe da Nação Tupinambá, sendo que um dos seus prisioneiros mais famosos, foi o alemão Hans Staden, conhecido como o primeiro “turista” a visitar Ubatuba e descrever o dia a dia dos índios. Em torno deste cacique é que se articulou todo o trabalho do Padre José de Anchieta a fim de conseguir a “paz” entre os portugueses e os índios do litoral chamados de Tamoios (que quer dizer “os primeiros” ou os “donos da terra”), surgindo também daí a reunião indígena “Confederação dos Tamoios”.

A ilha nessa época era conhecida como a Tapera de Cunhambebe, eles a chamavam de “Tapira”, traduzido como “lugar calmo”, e a ilha também era denominada como “Pô-Quã” (que quer dizer “pontuda”), provavelmente por se referir as duas montanhas de seus extremos: Morro do Papagaio e Morro do Farol.

Cronologia de fatos na Ilha Anchieta
Habitada por índios, dentre os quais, Cunhambebe, desde que se tem conhecimento, a ilha Anchieta recebeu os primeiros colonizadores ingleses, franceses e holandeses aproximadamente no ano de 1600. Suspeita-se que por volta de 1803 começaram as primeiras construções do que mais tarde viria a ser o presídio da então ilha dos Porcos.
– Em 1800 um destacamento do exército português, se instalou para garantir a posse da terra.
– Em 1850 a ilha abrigou uma base da marinha inglesa, instalada na Praia do Leste, para combater o tráfico de escravos (os navios negreiros).
– No início de 1870 a ilha já estava bastante povoada e tinha plantações de café, cana e até engenhos de pinga.
– Em 1885 a ilha passou a ser denominada Freguesia do Senhor Bom Jesus da Ilha dos Porcos.
– Em 1902 foram desapropriadas cerca de 412 famílias, para dar início  a construção do projeto do arquiteto Ramos de Azevedo, da Colônia Correcional, destinada a recolher os “homens bêbados e os considerados vadios”.
– Em 1908 foi inaugurada a “Colônia Correcional do Porto de Palmas”.
– Em 1914, com a difícil e dispendiosa manutenção, a Colônia foi desativada e os internos foram transferidos, para a Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté e para o Instituto de Reeducação de Tremembé no Vale do Paraíba.
– Em 1926, o Governo Paulista, após expulsar os caiçaras que haviam ocupado a ilha, enviou 2.000 imigrantes colonos búlgaros, fugitivos da revolução russa, que estavam abrigados em São Paulo, para a ilha, que tentaram nela sobreviver. Porem sem saber distinguir nas plantações nativas indígenas a colheita certa, morreram mais de cem pessoas, envenenadas com mandioca brava de fazer farinha, com isso, o governo mandou-os de volta à sua pátria.
– Na década de 1930, as edificações do presídio passaram por uma reforma, com o intuito de receber presos políticos da ditadura Getúlio Vargas, tendo ocorrido uma revolta em 1933, em que cerca de cem presos depredaram as instalações e tomaram o controle da guarda. Contudo, a situação foi controlada, não havendo mortos.
– A ilha foi chamada de “Ilha dos Porcos”, que era um nome de cunho pejorativo, que durou até 19/03/1934, quando da comemoração do quarto centenário de nascimento do Padre José de Anchieta. O então presidente Getúlio Vargas, através de seu interventor Armando Sales de Oliveira, altera o nome da ilha para Anchieta, e o presídio, “Instituto Correcional da Ilha Anchieta”.
– Os prisioneiros políticos protestaram e foram transferidos para a penitenciária, enquanto os detentos comuns desta, obrigados a cederem suas vagas, foram encaminhados para a Ilha Anchieta, que passou a ter presos de alta periculosidade, menores infratores, incluindo aqueles sem nenhum processo, muito menos condenação, os considerados “vadios”.
– Em 1945, chegou à ilha outro grupo de presos políticos, chamado “Shindo Romei”, idealistas japoneses que durante a segunda grande guerra mundial, executavam seus compatriotas aqui mesmo no Brasil, por considerá-los amigos dos brasileiros e, por conseguinte, traidores do Japão. Nesta época a população carcerária da ilha chegou a 950 detentos.
– Em 1952 acontece a “Grande Fuga”. Sob a liderança de Pereira Lima, Faria Lima, Diabo Loiro e China, 107 presos fogem do presídio, abrindo caminho a balas pela praia num confronto que matou 8 soldados e 4 funcionários penitenciários. Foi a maior evasão de detentos da história carcerária mundial. Relatos de presos se entregando e, mesmo assim, sendo massacrados até a morte e de presos fiéis ao presídio lutando ao lado dos policiais são encontrados até hoje em obras que tratam do assunto.
– Em 1955 o presídio é desativado definitivamente e apenas em 1969, por um projeto chamado FUMEST, suas ruínas são transformadas em atração turística pelo governador Abreu Sodré. Em 1984 o governador Franco Montoro decreta o local Parque Estadual da Ilha Anchieta. Até hoje, a ilha é o maior polo turístico de Ubatuba. Em 1999, passou por uma reforma que recuperou instalações de infraestrutura turística.

A Maior Rebelião da História Mundial
Basicamente a estrutura da ilha era dividida entre Presídio, Vila de moradores e Vila do quartel. As celas do presídio foram construídas de modo a formar um pátio retangular, e era nesse pátio que os presos se reuniam, a maioria de alta periculosidade. No início da década de 1950, estavam confinados na ilha, cerca de 453 presos, e havia bastante animosidade entre grupos rivais, que se enfrentavam no pátio, e os cerca de 50 policiais tinham grande trabalho para conter estes conflitos, sendo o principal líder dos presos, o perigoso João Pereira Lima, o “Pernambuco”.

Ilha Anchieta - Presidio
Ruínas do Presídio da Ilha Anchieta

A rotina do presídio mudou quando chegou para cumprir pena, Álvaro da Conceição Carvalho Farto, o famoso “Portuga”, um criminoso com conhecimentos de engenharia e muito inteligente. Aos poucos Portuga passou a influenciar os outros presos, dando funções específicas a cada um, organizando a vida interna, o que diminuiu os conflitos. Alguns presos pescavam, outros cuidavam da lavoura e outros do corte de árvores. Mas as intenções do Portuga não eram bem essas.

Tendo criado uma organização entre os presos, passou a arquitetar um plano para uma rebelião, que incluía a tomada do presídio e das armas que ficavam no quartel do Morro do Papagaio. Sob a influência do Portuga, os detentos passaram a ser mais cordiais e gentis, se aproximaram bastante dos policiais e até da população da ilha, num clima de confiança e paz que na verdade era o preparatório para o golpe.

Ilha Anchieta - Presidio

20 de Junho de 1952
O dia escolhido para a ação foi 20 de junho de 1952, pela manhã, quando 110 presos foram buscar a lenha que já havia sido cortada por outro grupo de 12 presos. Estes 110, foram acompanhados de apenas dois soldados e dois guardas civis do presídio. Naquele dia, por volta das 12 horas, chegaria a embarcação, chamada “Ubatubinha”, trazendo mantimentos, como sempre acontecia uma vez por mês. Os presos planejavam tomá-la de assalto para fugir da ilha. Um dos soldados que acompanhava os presos foi morto, outro dominado e amarrado em uma árvore, assim como os dois guardas civis.

João Pereira Lima, assumiu o comando da rebelião, e os detentos retornaram ao presídio, e no início do ataque ao quartel, com um tiro de fuzil, matou o “armeiro” (soldado Otávio dos Santos), e depois iniciou-se um confronto com os demais soldados. Os detentos invadiram a reserva de armas e se apoderaram de fuzis, mosquetões, metralhadoras, revólveres e farta munição.

Invadiram todas as dependências do presídio, arrombando as portas dos pavilhões e das celas, libertando todos os detentos e atacaram as residências do diretor e do tenente da Guarda Militar. A vitória dos presos foi completa, estouraram o cofre forte do presídio, executaram alguns soldados e agentes penitenciários e em liberdade passaram a dar as ordens na ilha. Em meio a toda esta desordem, uma voz se fez ouvir; “Se eu souber que alguma mulher ou criança foi maltratada, o autor terá morte pelas minhas mãos…..nosso fim é a fuga”. Frase proferida por João Pereira Lima, o líder da rebelião.

De um total de 129 fugitivos, 15 foram mortos nas ações de recaptura na Serra do mar,  porém seis nunca foram recapturados. A rebelião deixou ao todo 28 mortos, sendo 18 presos, 8 policiais e 2 funcionários civis. E o grande líder, Portuga, que tinha problemas cardíacos, foi encontrado morto na ilha. 

De 1952 a 1955, a ilha sediou um fórum, com juiz, promotor e 20 advogados, com a finalidade de julgar os presos capturados. Em 1955, o presídio da Ilha Anchieta foi desativado e os presos transferidos para a Casa de Custódia de Taubaté, um presídio de segurança máxima. Esta foi uma rebelião histórica, notícia em todo mundo e quem visita o presídio tem acesso as informações sobre a construção do prédio, os presos que lá estiveram, o plano de fuga e a rebelião.

Projeto Filhos da Ilha Anchieta
“Filhos da Ilha” é como são chamados as cerca de 250 pessoas que nasceram, moraram e/ou trabalharam na Ilha Anchieta na época da rebelião. Este evento de resgate da história da rebelião do presídio da Ilha Anchieta, denominado “Filhos da Ilha”, foi organizado pelo Tenente Samuel, oficial da Polícia Militar já reformado.

Filhos da Ilha Anchieta

Trata-se de um encontro dos remanescentes da rebelião do presídio da Ilha Anchieta, que acontece anualmente, para relembrar o trágico acontecimento de 1952. O que antes era motivo de tristeza, hoje é um evento marcado pela solidariedade, paz e emoção. Familiares de pessoas que viveram, trabalharam ou estiveram presas na época, se reúnem para não deixar que a história se perca.

O evento, teve início num encontro em Taubaté com 63 pessoas, e atualmente conta com algumas centenas de pessoas, que lotam as escunas em busca de um resgate social e histórico, além da confraternização e um belo passeio marítimo. Também é celebrada uma missa na Capela da Ilha por intenção daqueles que perderam a vida no levante de 1952, na Ilha Anchieta, e também por todos os “Filhos da Ilha”, tanto os que moraram no local como de seus descendentes.

O Tenente Samuel escreveu quatro livros sobre o palpitante tema:
–  “Ilha Anchieta – Rebelião e Fatos”.
–  “Casa de Custódia de Taubaté” – em parceira com o Coronel Lamarque Monteiro.
–  “Ilha Anchieta – O Prisioneiro do Pavilhão 6”.
– “Rebelião da Ilha Anchieta – Relatos de um Sobrevivente”.

A Capela da Ilha Anchieta
No dia 6 de agosto é comemorado o Dia do Senhor Bom Jesus, padroeiro da Ilha Anchieta. Esta é uma comemoração histórica que era feita na metade do século XIX, em 1850, quando a Ilha Anchieta era chamada de Ilha dos Porcos.

Capela do Bom Jesus – Ilha Anchieta

Naquela época, a ilha era um povoado da comarca de Ubatuba bastante habitada, que contava com casas, plantações, pequenos negócios, uma escola, uma capela e um cemitério. Já naquela época, no dia 6 de agosto, a Festa do Padroeiro Senhor Bom Jesus da Ilha dos Porcos era feita na mesma capelinha que existe hoje.

Em 1999, a Capela de Ilha Anchieta, projeto original de autoria do arquiteto Ramos Azevedo, foi restaurada graças a uma parceria entre a prefeitura de Ubatuba, a Igreja Católica, a Polícia Militar e a Diretoria do Parque Estadual da Ilha Anchieta.

Ilha Anchieta - Capela do Bom Jesus
Interior da Capela do Bom Jesus – Ilha Anchieta

No dia de Bom Jesus houve uma procissão de barcos levando a imagem esculpida pelo artista Da Motta, com a presença de todos os envolvidos nesta tarefa, bem como de muitos familiares e antigos moradores da Ilha Anchieta. Uma curiosidade é que quando o Projeto TAMAR era na Ilha Anchieta, esta capela recebia as exposições.

Filhos-da-Ilha-Anchieta - Livro

Filhos da Ilha – O resgate da história
O organizador do “Filhos da Ilha” é um tenente que nada tem a ver com a rebelião na Ilha, senão a paixão pela história e uma série de coincidências que o levaram promover esses encontros. “Não planejei nada, foi acontecendo naturalmente”, afirma o Tenente Samuel Messias de Oliveira. Ele não trabalhou no Instituto Correcional da Ilha Anchieta, que foi o primeiro presídio de segurança máxima do estado de São Paulo, mas trabalhou em diversos outros presídios, como o Carandiru, a FEBEM e o Instituto de Reeducação de Tremembé. Neste último, conheceu João Pereira Lima, o líder da rebelião e teve contato com policiais e soldados. Antes disso, havia lido o livro “Motim na Ilha”, que representou seu primeiro contato com a história.

Mais tarde, o tenente resolveu ir conhecer a Ilha “pessoalmente” e encontrou o presídio em ruínas, bem como a sua história, como se fosse algo a ser esquecido. A partir disso, começou a pesquisar e escrever a história em jornais e livros, para homenagear os sobreviventes. Samuel conta que, a princípio, era muito doloroso para os sobreviventes resgatar esse passado traumático, lembrar do massacre que deu origem a um filme italiano denominado “Mãos Sangrentas”.

“No primeiro encontro, quando exibi o filme da minha primeira visita à Ilha, muitas pessoas se emocionaram, passaram mal, mas aos poucos, eles foram reassumindo sua história. Hoje eles têm orgulho de serem descendentes do povo da Ilha. O encontro “Filhos da Ilha” representa um resgate espiritual, psicológico e social, onde histórias vêm à tona, as mágoas são dissipadas e o que predomina é a emoção e a solidariedade”.

História ou Lenda…
Segundo registros, até o início do século XIX, a ilha fora habitada por índios e a tribo usava o centro da Praia Grande (hoje conhecida como Praia das Palmas), três minutos das areias adentro, um terreno como cemitério, o mesmo utilizado pelos militares para enterro dos presos e moradores da praia.

Alguns pescadores contam a história, que afirmam ser verdadeira, que na época em que a pesca era liberada, eles passavam a noite acampados na Praia Grande e lá passavam o picaré (pesca de dois ou mais homens. A rede vertical de aproximadamente um metro e meio é presa por um bambu em ambas as laterais).

Um homem segura um extremo no raso, enquanto o outro entra no mar preparando o cerco e, no momento certo, ambos puxam a rede para a praia), porém ninguém ousava ultrapassar a terceira amendoeira ao lado direito da praia, após a meia-noite. Esta era assombrada: assobiava, sem que ninguém estivesse lá e só ela balançava como se estivesse ventando forte. Dizem que ficavam arrepiados e apavorados, que isso só podia ser coisa de alma penada. Mas, isso é coisa do passado…

Vejam este vídeo promovido pela Secretaria do Meio Ambiente do Estado de SP, com os apresentadores Celso Cavallini e Izadora Bicalho, mostrando a Ilha Anchieta com detalhes:

Fontes de Informações:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Parque_Estadual_da_Ilha_Anchieta
https://www.ilhaanchieta.com.br/#/paginas/historia-anchieta
https://www.tenentesamuelmessiasdeoliveira.com/projeto-filhos-da-ilha
https://naturam.com.br

https://www.litoralbrasileiro.com.br/sp/ubatuba/ecoturismo/ilhas-ubatuba/
https://www.ubatubavirtual.com.br/sapateiro.htm