Areia Monazítica e o Projeto Manhattan

Areia Monazítica e o Projeto Manhattan

Ubatuba exportou areia para os EUA na corrida pela bomba atômica!

Entenda como a areia monazítica (ou monazita) retirada das praias brasileiras ajudou a alimentar a era nuclear. Quando se fala em riquezas minerais do Brasil, a maioria das pessoas pensa em ouro, ferro ou petróleo. Poucos sabem que uma das matérias-primas mais estratégicas do século XX foi retirada diretamente de praias brasileiras e enviada ao exterior. Entre elas estava a areia monazítica, um mineral aparentemente comum, mas rico em tório e elementos terras raras que, décadas depois, se tornariam fundamentais para a energia nuclear, a indústria eletrônica, os sistemas de defesa, os veículos elétricos, as turbinas eólicas, os satélites, os lasers e os smartphones. A história dessa exploração começou muito antes dos brasileiros compreenderem o valor desses recursos. Os estrangeiros chegaram primeiro.

Areia Monazítica - Imagem de Luciney Araujo
Areia Monazítica – Imagem de Luciney Araujo

A descoberta que mudou tudo
Em 1898, o engenheiro norte-americano John Gordon observou areias escuras incomuns no litoral brasileiro. Amostras enviadas ao professor Henri Gorceix, fundador da Escola de Minas de Ouro Preto, revelaram a presença de monazita, um mineral rico em tório e terras raras. Na época, o interesse não era militar. O tório era utilizado na fabricação de mantas incandescentes para iluminação a gás, tecnologia que iluminava cidades europeias e norte-americanas antes da popularização da eletricidade.

De posse do relatório, John Gordon foi a Europa procurar interessados em comprar o tal mineral brasileiro e encontrou o austríaco Carl Auer von Welsbach, criador de um sistema de lâmpadas incandescentes a gás que iluminou a Europa durante vários anos. Ele descobriu que o óxido de tório era o melhor material para produzir uma luz forte e duradoura, e encontrou em John Gordon o grande vendedor de areia. Enquanto a iluminação elétrica ainda dava os primeiros passos na Europa, tanto a Auer Light quanto diversas outras empresas europeias que fabricavam luminárias a gás passaram a encomendar areia monazítica para a retirada do tório. Na época, a maior parte da areia era extraída no balneário de Cumuruxatiba, na região de Prado, Sul da Bahia. John Gordon viu uma oportunidade de negócios e conseguiu do governo brasileiro autorização para mapear e identificar em que locais da costa havia a ocorrência desse tipo de areia e explorá-la.

Gordon: O primeiro Explorador de Areia Monazítica
Gordon: O primeiro Explorador de Areia Monazítica – Imagem extraída de: Areias Monazíticas: História e Exploração | PDF | Armas nucleares | Brasil

O sistema de iluminação a gás criado pelo austríaco Carl Auer usava óxido de tório, derivado da monazita. A demanda pela areia brasileira aumentou bruscamente. As lâmpadas eram usadas na iluminação pública de grande parte da Europa e também dos Estados Unidos. O principal vendedor, John Gordon, retirava areia do Sul da Bahia e fugia dos impostos atuando na clandestinidade. Muitas vezes encheu navios declarando que a areia serviria apenas como lastro. Temos registros de jornais brasileiros que relatam, entre 1880 e 1910, atos do Poder Executivo brasileiro concedendo a John Gordon inúmeras porções de terra com areia monazítica. Há registros também de acusações contra o americano por ter subornado governantes e tomado terras de outros homens, sobretudo no Sul da Bahia. Para convencer o governo de que sua proposta era vantajosa, ele alegava que as areias eram um bem infinito, com grande potencial de exploração e sem grandes impactos à natureza. Seja por má-fé ou falta de conhecimento técnico, as autoridades brasileiras acabaram aceitando as propostas de Gordon, que pagava menos pela posse das terras do que os antigos donos. Ele também ficou milionário com a exploração.

As primeiras extrações ocorreram no sul da Bahia, especialmente na região de Cumuruxatiba. Pouco depois, depósitos ainda mais ricos foram identificados em Guarapari, no Espírito Santo, que se tornaria o principal centro de exploração da monazita brasileira. Também foram identificadas ocorrências ao longo do litoral fluminense e paulista, incluindo áreas de Ubatuba. Durante anos, navios estrangeiros retiraram areia monazítica das praias brasileiras sob a justificativa de utilizá-la como lastro. Posteriormente, passaram a comprá-la formalmente, mas por valores extremamente baixos quando comparados ao valor estratégico que aquele material viria a adquirir.

Areia Monazítica - Presente na Praia do Lázaro
Areia Monazítica – Presente na Praia do Lázaro

A areia brasileira entra na era atômica
A importância da monazita mudou radicalmente durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1942, os Estados Unidos criaram o Projeto Manhattan, o programa secreto responsável pelo desenvolvimento das primeiras armas nucleares da história. Paralelamente ao trabalho científico, o general Leslie Groves organizou uma operação global clandestina para localizar e controlar depósitos de minerais estratégicos. Essa operação secreta recebeu o nome de “Murray Hill Area”. Com apoio direto do presidente Franklin Roosevelt e do secretário de Guerra Henry Stimson, Groves passou a adquirir urânio, tório e outros minerais radioativos em diversos países. As compras eram tão sigilosas que sequer eram submetidas ao congresso norte-americano. O Brasil rapidamente entrou no radar dos estrategistas norte-americanos.

Pesquisas geológicas realizadas durante a guerra revelaram que, nosso país, possuía grandes reservas de areia monazítica e também ocorrências importantes de berílio, um metal raro utilizado como refletor e moderador de nêutrons em aplicações nucleares. Em um memorando histórico, Groves registrou: “Se jamais houve um tempo para chegar secretamente a um acordo diplomático secreto, este é o tempo.” O objetivo era garantir acesso exclusivo ao tório brasileiro e impedir que potenciais adversários pudessem utilizar esses recursos.

Praia do Engenho na Ilha Anchieta e Areia Monazítica
Praia do Engenho na Ilha Anchieta – Ubatuba e a Areia Monazítica

O acordo secreto da monazítica
Em fevereiro de 1945, durante a Conferência Pan-Americana de Chapultepec, no México, os Estados Unidos negociaram com o Brasil um acordo para aquisição exclusiva da monazita, extraída principalmente do Espírito Santo. O tratado foi assinado em julho de 1945, antes mesmo das explosões de Hiroshima e Nagasaki. Pelo acordo, o Brasil comprometeu-se a fornecer entre 3 mil e 5 mil toneladas anuais de monazita aos Estados Unidos durante pelo menos três anos, com possibilidade de renovação por décadas. Poucos brasileiros sabiam o real significado daquela exportação. Embora não existam evidências de que a monazita retirada especificamente de Ubatuba ou de Guarapari tenha sido utilizada diretamente nas bombas lançadas sobre o Japão, a documentação histórica demonstra que esses minerais integraram a cadeia estratégica de suprimentos criada pelos Estados Unidos durante o Projeto Manhattan e os primeiros anos da corrida nuclear. Em 1945, o consórcio internacional organizado por Groves já controlava cerca de 97% das reservas comerciais conhecidas de urânio e tório no mundo ocidental. A areia das praias brasileiras havia se tornado um ativo geopolítico.

Guarapari: a cidade que perdeu sua areia
Nenhuma cidade simboliza mais essa história do que Guarapari (ES). Durante décadas, enormes volumes de areia monazítica foram retirados de suas praias. As famosas areias escuras que hoje atraem turistas por sua radioatividade natural são apenas uma fração do que existia originalmente. A exploração alterou paisagens, reduziu depósitos naturais e transformou a cidade em um dos maiores símbolos da mineração costeira brasileira. Guarapari foi, sem dúvida, a cidade mais impactada por esse processo.

Praia do Oeste e a Areia Monazítica
Praia do Oeste (região sul de Ubatuba) e a Areia Monazítica

Ubatuba também participou dessa história
Menos conhecida é a participação do litoral paulista. Depósitos de areias pesadas contendo monazita foram identificados em diferentes pontos da costa norte de São Paulo. Em Ubatuba, parte desse material foi explorada e integrada ao circuito internacional de exportação de minerais estratégicos. Várias praias de nossa cidade têm este tipo de areia, entre elas a Praia Dura, Maranduba, Praia do Engenho na Ilha Anchieta e Praia do Oeste.

Embora em escala menor do que no Espírito Santo, a participação de Ubatuba demonstra que a exploração da monazita não foi um fenômeno isolado, mas parte de uma ampla rede de extração distribuída ao longo do litoral brasileiro. Assim, quando se afirma que Ubatuba exportou areia para os Estados Unidos durante a corrida nuclear, trata-se da participação da cidade em uma cadeia internacional de fornecimento de minerais considerados estratégicos para os programas nucleares da época.

A oportunidade que o Brasil quase aproveitou
Após a guerra, o Brasil chegou a ocupar posição de destaque mundial no processamento de terras raras. Na década de 1950 surgiu a ORQUIMA, empresa sediada em São Paulo e liderada por cientistas e engenheiros de alto nível, sob a orientação de Pawel Krumholz. Utilizando monazita proveniente principalmente da região de Buena, em São Francisco de Itabapoana, no norte fluminense, a empresa desenvolveu processos avançados de separação química e purificação de terras raras. O país tornou-se referência internacional na produção de óxidos de alta pureza. Entre os feitos mais notáveis estava a produção de óxido de európio de elevada pureza, material que foi exportado para os Estados Unidos e utilizado em aplicações nucleares avançadas, incluindo projetos relacionados ao submarino nuclear Nautilus. O Brasil esteve entre os líderes mundiais de uma tecnologia que movimentou centenas de bilhões de dólares.

Enorme Quantidade de Areia Monazítica
Enorme Quantidade de Areia Monazítica – Fonte: Guarapari: Areia Monazítica e Corrupção | PDF | Brasil | Armas nucleares

O desmonte
Essa trajetória, porém, foi interrompida. Nas décadas seguintes, a Orquima foi incorporada à estrutura estatal ligada ao setor nuclear. O foco passou a ser quase exclusivamente o urânio e o tório. Grande parte das pesquisas em terras raras foi abandonada. Instalações foram desativadas. Equipes foram dispersadas. Conhecimento acumulado foi perdido. O resultado dessa política ainda pode ser visto atualmente na chamada “Torta II”, um passivo radioativo armazenado na Unidade de Descomissionamento de Caldas, em Minas Gerais. O material contém milhares de toneladas de resíduos oriundos do processamento da monazita, incluindo tório, urânio, rádio e elementos terras raras de elevado valor econômico. .

Fonte de Informações:
https://www.gov.br/cnpq/pt-br/assuntos/noticias/destaque-em-cti/as-varias-faces-da-questao-terras-raras-e-a-corrida-pelo-dominio-cientifico-tecnologico
https://boletim.sbq.org.br/noticias/2025/n4255.php
O “Projeto manhattan” e a compra de minérios atômicos
Areias Monazíticas: História e Exploração | PDF | Armas nucleares | Brasil
https://www.inb.gov.br/
Areias Monazíticas – Psicomedic – Centro de Especialidades