Eusébio Higino de Oliveira, o querido “Seu Gino”, nasceu às dez horas da manhã, em 10 de dezembro de 1943, em Itamambuca, quando esse recanto de Ubatuba ainda era desconhecido, isolado entre mar e Mata Atlântica, acessível apenas por trilha (“picada” no mato) ou pelo oceano, quando a maré assim permitia. Seu pai, Sr. Teodoro, era filho de escravizado (Pai Antonio) e sua mãe. Ana Carmem de Oliveira. Sua avó Didita era indígena, muito respeitada na região, parteira em Itamambuca e faleceu quando “Seu” Gino tinha apenas 5 anos.

Ele cresceu numa casa simples, de pau a pique, de sapê, banheiro nem tinha, local onde o trabalho duro moldava o caráter e a dignidade guiava os dias, trabalhou firme na roça, plantando mandioca, milho, cana de açúcar e banana. Foi o quarto de treze irmãos, treze vozes, treze batalhas, treze histórias que ecoavam no quintal de chão batido. Religioso, muito agradecido a Deus, fez questão de citar salmos da bíblia durante sua entrevista e por várias vezes falou: “Deus é Deus, ele quem criou todas as coisas”. Desde cedo, o oceano o chamava. Maricultor, pescador, chefe de cozinha e “gelador” (aquele que no barco, sabe cuidar do peixe como poucos, conservando com gelo o pescado de forma apropriada).
Seu Gino era, antes de tudo, um homem do mar. O sal impregnava suas mãos, temperava a vida e deixava nos olhos o brilho de quem aprendeu que a água guarda memórias. Recebeu o apelido de “Pelé” (Pelé da Pesca) e também jogou futebol com paixão, e o destino, sempre caprichoso, fez com que ele conhecesse o verdadeiro e jovem Pelé (o rei do futebol), em uma partida de futebol na Vila Belmiro, quando o menino de Itamambuca já se aventurava para além das fronteiras do seu mundo.

Com seus 10 anos, começou a vir a pé para a cidade (centro de Ubatuba, trabalhava no cais, pegava os cestos vazios e jogava nos barcos. Aos doze anos, embarcou para Santos usando apenas uma camiseta e um calção rasgados. A travessia não era apenas geográfica, era também simbólica, seu primeiro mergulho no desconhecido. Ainda no barco, ao se aproximar do porto, avistou as luzes do farol colorida, e a cidade completamente iluminada, luz elétrica brotando do chão como se fosse feitiço. Sentiu uma emoção profunda e chorou. Achou que havia chegado ao céu. Afinal, estava acostumado com iluminação a base de vela e lamparina / candeia alimentada com óleo de cabeça de tainha ou querosene. Somente muitos anos depois, chegou o lampião a gás.
Naquela época, em Ubatuba, a única luz noturna disponível, vinha do Cruzeiro, aquele que fica na Praia do Centro, e se apagava às dez da noite. O brilho de Santos era, para ele, um milagre. Ao desembarcar, foi acolhido com generosidade, deram-lhe roupas novas, comida quente e foi tratado sem preconceito. Ganhou uma família, e até documentos foram providenciados no Juizado de Menores para que pudesse permanecer e trabalhar em Santos.

Pouco tempo depois, o destino lhe trouxe Maria dos Santos Barbosa de Oliveira. Foi ela quem o pediu em namoro, ele, em sua simplicidade, nem sabia o que “namorar” significava e nem acreditava que uma mulher “branca” poderia gostar tanto dele. Mais tarde, ela se tornaria sua esposa (casaram-se em 1966), e ela se tornou sua parceira de vida e também sua professora: foi com ela que aprendeu a ler e escrever, pois ele não tinha “leitura”, e ela que já dava algumas aulas na Barra Seca, pegou em sua mão e o ensinou a escrever seu nome e iniciou sua alfabetização. Este gesto iluminou sua história, tanto quanto as luzes de Santos iluminaram sua primeira noite naquela cidade. Trabalhou boa parte da vida em Santos, pois lá “dava mais dinheiro” que em Ubatuba.
Nunca havia provado uma bebida alcóolica, somente aos 18 anos quando namorava sua futura esposa, seu sogro lhe ofereceu a “minhotinha” (pequena garrafa de pinga), que ele colocava na mesa e assim compartilhavam juntos. Maria, uma descendente de alemães, acompanhou “Seu” Gino, foram felizes e quando “partiu” em 2005, deixou nele um silêncio que só o mar, às vezes, consegue consolar. Juntos, criaram seis filhos. Ele sempre trabalhou sem descanso, carregando sobre os ombros a responsabilidade de manter a família, algo que fez com dedicação, honestidade e orgulho. Mas sua trajetória não foi feita apenas de conquistas. “Seu” Gino sofreu muito racismo na infância, na juventude e até na vida adulta. Carregou feridas silenciosas, marcas profundas que o tempo não apaga, mas que também ajudaram a moldar sua força e sua coragem.

As paisagens da sua juventude mudaram. O rio Indaiá que faz a divisa entre as Praias do Perequê-Açú e da Barra Seca, já foi fundo, cheio de movimento e a travessia era feita de balsa. O riacho à esquerda da Praia da Barra Seca, onde tainhas e robalos corriam em cardumes prateados, desapareceu após a construção da rodovia Rio–Santos, e fez nascer a lagoa da Vermelha do Norte, fruto direto da intervenção humana.
Mesmo com tantas transformações, Seu Gino permaneceu. Continuou cultivando mariscos, navegando em sua canoa e tirando do mar aquilo que sempre sustentou sua vida. Resistiu quando tentaram arrancar seu quiosque e sua criação de mariscos, para que fosse construída uma marina, como se a história de um homem pudesse ser removida com máquinas e papel. Hoje, o Quiosque Aconchego da Barra, na Praia da Barra Seca, é um dos mais tradicionais da região. Ali, entre risos, maresia e histórias, “Seu” Gino serve iguarias que carregam sua identidade, entre elas, o célebre bolinho de arraia, sabor que se tornou símbolo de sua cultura e de sua persistência.

História da Jararacuçú
Perguntamos ao “Seu” Gino se, em suas andanças, já havia tido algum encontro inesperado com serpentes. Sempre alegre, ele nos respondeu:
— Nunca fui picado. Cobra é minha amiga.
E então contou: Uma vez, em Itamambuca, eu ainda era criança, tinha uns 8 anos. Fui comer um araçá amarelinho. Olhando pra fruta, me apoiei numa touceira. Primeiro senti um lugar macio, mas eu só queria pegar o araçá. Logo depois senti o pé gelado e ouvi um barulho de ronco. Pensei na hora: “Deve ser algum pinguço que ficou por aqui”, porque tinha tido uma festa no dia anterior.
Ele fez uma pausa e continuou:
— Eu nem percebi que estava apoiado em cima de uma jararacuçu, uma cobra enorme. Meu pé estava bem em cima da cabeça dela. Dei um pulo pra trás, mas não tive muita sorte: tinha um cipó caboclo, que me laçou. Fiquei preso ali, e a cobra me encarando. Ela abriu aquela boca enorme, cheia de veneno, como se dissesse: “Vem, neguinho… vem que eu vou te pegar”.
— Mas consegui me soltar e saí correndo — contou, rindo. — Deus é Deus, Ele criou todas as coisas.
Depois, mais sério, concluiu: Eu escapei. Mas meu pai foi mordido sete vezes por cobra. A gente tratava com remédio caseiro, feito em casa. Tinha também um senhor que mascava fumo e chupava o veneno da mordida. É mole? E ele não morria.
Para quem o escuta, Seu Gino não conta apenas histórias: ele entrega capítulos inteiros da memória caiçara. Viveu uma Ubatuba que muitos jamais verão, o lampião a gás tremulando na escuridão, o silêncio da noite cortado apenas pelo mar, o Cruzeiro brilhando distante, a canoa deslizando por águas profundas, o menino que chorou diante da cidade iluminada.
Na entrevista realizada em 15 de novembro de 2025, seu raciocínio e memória surpreenderam, suas palavras vieram simples, densas e verdadeiras. Em cada frase, uma travessia. Em cada lembrança, uma geografia que já não existe mais, exceto ali, viva e resistente, na memória desse homem que carrega, no corpo e na fala, a história de um povo inteiro. Com muito bom humor, mencionou: “Estou contando os detalhes de minha trajetória, pois assim que eu subir daqui de míssil, só vai ficar a carcaça e o que eu falei vai ficar gravado para história”. E “Seu” Gino até então, mantém o hábito de conduzir sua canoa até o meio da baía na Praia da Barra Seca e fazer a coleta de mariscos, em sua fazenda marinha.