“Bigode” – Nosso Grande Artista

Antonio Theodoro de Souza, o “Bigode”, nasceu na Barra Seca em 18/12/1932. Tornou-se artesão a partir de um desafio: Dona Sara, jovem comerciante de objetos de arte, trazendo da Bahia um facão entalhado em jacarandá, perguntou ao humilde caiçara se ele tinha condições de reproduzir um igual. Na hora ele respondeu que sim, mas que não tinha uma madeira tão dura. “Assim que achar, eu faço um para a senhora”.

BigodeEsse bravo caiçara, de posse de um machado, partiu para a mata para encontrar a dita madeira dura. Após andar o dia todo, sentou-se à sombra de uma árvore, próximo de um córrego de águas límpidas e fresca. Ali se entregou às lamúrias por seu aparente fracasso: uma busca que o ajudaria a ganhar um desafio. Pois foi exatamente ali, onde Bigode escolheu para descansar, que o senhor bom Deus plantou uma árvore de madeira tão dura que hoje o faz tão famoso: a palmeira brejaúba.

Bigode não só fez o facão como também um par de talheres de mesa, o que causou muita emoção em Dona Sara pela beleza do trabalho. A beleza da madeira também teve participação importante nesse sucesso!

A partir de 1964, o nosso personagem nunca mais parou. Venceu muitas exposições e ganhou muitas medalhas.

Bigode teve vinte filhos, e sua residência, no Perequê-Açú, sempre foi um verdadeiro estúdio, onde sempre deixou exposto seu trabalho. Antes de se tornar um artesão, ele fez de tudo um pouco, mas sempre disse que a madeira e a escultura sempre estiveram por perto, como que esperando a hora de entrar.

Bigode

“Eu, quando jovem, trabalhei em uma padaria e fazia figuras com a massa do pão. Assava e as pessoas gostavam. Eu recebia muitas encomendas e isso acabou custando meu emprego.” De família humilde, sempre teve que trabalhar para se sustentar e por isso diz que a escultura, para ele, nasceu pelo sofrimento da vida.

“Eu, aos 3 anos, fiquei muito doente e fui desenganado pelos médicos. Quem me curou foram as ondas do mar e a areia da praia. Tudo o que fazia na areia o mar levava, então comecei a fazer na madeira.”

Disse que, a primeira figura que fez, foi um Divino Espírito Santo, para o tio colocar na bandeira da folia do Divino que havia caído no rio. “Depois, comecei a fazer as coisas que via por aqui, os peixes, pescadores, os bêbados e também fazia rabeca. Vi uma com um folião da festa do Divino e fiz uma de guatambu. Lembro também que aos 7 anos fiz um prato e os talheres para eu usar.”

Algumas obras de Bigode
Algumas obras de Bigode

Homem dedicado e preocupado com a natureza, produziu mais de 5.200 peças, tomou-se um dos maiores escultores de Ubatuba, com mais de duas mil peças espalhadas pelo exterior. Peças que vão desde uma minúscula imagem de São Francisco até a estátua da Igreja da Imaculada Conceição, com mais de 1,70m.

Sem esconder as influências de sua formação católica, seu Bigode teve o orgulho de ser um dos poucos artistas nacionais a ter uma obra exposta no Vaticano.

São de sua autoria também os quatro santos na igreja do Pilar, em Taubaté (São José, Santo Antônio, São Francisco e São Jorge).

Suas obras ganharam o mundo. Graças ao seu talento de escultor, ele conseguiu o “1º lugar (medalha de ouro) no “Paço das Artes”(SP) e o 2º lugar na mostra “Maiores Santeiros do Brasil”, concorrendo com 60 artistas”.

Mestre Bigode, reconhecido ao lado de Aleijadinho, como um dos maiores escultores santeiros do País. Nascido e criado na Barra Seca em Ubatuba. Orgulho e muita emoção, no final de sua vida, mesmo cego, por conta de debilitado por conta do glaucoma e da pressão alta, o mestre continuava ensinando…

Bigode

Numa tarde de verão, Bigode falou sobre sua vida e seu trabalho:
Fonte: Jornal A Cidade – 30 de dezembro de 1993.
P – Quando começou a esculpir madeira?
Bigode – Desde os sete anos que eu já fazia as coisas para mim. Já vendia, pra ganhar o pão. Fazia tamanco, colher, até o prato de madeira eu fazia.

P – Quem ensinou o Sr.?
Bigode – Ninguém, aprendi sozinho. Usava vários tipos de madeira, cacheta, guirana, urucurana. Papai não queria que eu fosse escultor. Queria que eu estudasse. Eu não sei ler nem escrever.

P – Alguém o incentivou nessa idade, ou percebeu que o Sr. tinha talento?
Bigode – Meus tios diziam que “o menino tem uma idéia que é uma coisa louca”. Eu tinha medo do papai. Eu pegava a faca e escondia o trabalho no mato. Aí eu fugia da escola. Depois de homem é que passei a viver da escultura.

P – Como o Sr., consegue a madeira hoje em dia?
Bigode – Eu busco no mato. É proibido, mas eu sou escultor desde criança. Uma árvore que você tira por ano, não faz mal à mata. Ela brota de novo. Quando peguei minha primeira medalha de ouro no Paço das Artes em São Paulo, eles me deram esse direito. A gente aprendeu a fazer a árvore brotar novamente… Depois ganhei várias outras medalhas e prêmios, com o “Remo Caiçara” e o “Arrependimento de São Pedro”. Só fiz dois São Pedros na minha vida, sentados, chorando, que me deram as medalhas de ouro. Os dois estão no Mato Grosso.

Bigode

P – Além de escultor, o Sr. é corredor…
Bigode – Corri vinte anos a São Silvestre e seis maratonas. Participei a última vez da São Silvestre há quatro anos. Não fui mais, por falta de apoio.

P – Como define o escultor ?
Bigode – O escultor não sabe o que está fazendo, ele é leigo. Quando pega a madeira, não sabe o que vai fazer. Aos poucos você vê a forma. As vezes é um estalo, vem na imaginação. Aí faço o traço, desenho na madeira.

Bigode, nos deixou em um Domingo, em 14/06/2015 aos 82 anos.

Fonte de Informações:
http://ubatubense.blogspot.com/2014/01/bigode-nosso-grande-artista-ubatubense.html

https://ubatubense.blogspot.com/2021/04/antonio-teodoro-de-souza-carinhosamente.html

http://www.artedobrasil.com.br/antonio_teodoro.html

http://www.ubaweb.com/ubatuba/personagens/index_per_masc.php?pers=bigode

A diversidade do artesanato de Ubatuba