Washington de Oliveira – “Seu Filhinho”

Washington de Oliveira – “Seu Filhinho”

Nascido na cidade de Ubatuba no dia 30 de março de 1906, descendente de nativos, com exceção de seu bisavô materno, o armador e navegante francês Jean Marie Giraud, “Seu Filhinho”, como era chamado, foi referência da história recente de Ubatuba. Foi farmacêutico e humanitário, o único profissional de saúde residente na cidade na primeira metade do século XX, realizando operações de emergência e resolvendo até casos de cirurgias dentárias. Exerceu também a função de escrivão de polícia, legista, agente do Lloyd, e na política, atuou como vereador, presidente da Câmara Municipal e prefeito. O Plenário da Câmara recebe seu nome, numa justa homenagem.

Seu Filhinho e a Farmácia
Seu” Filhinho e a Farmácia

Em Ubatuba não havia escolas na época e seu pai um autodidata, tanto estudou sozinho que conseguiu perante o Tribunal de justiça de São Paulo, o título de Advogado provinciano. Filhinho frequentou o grupo escolar de Ubatuba, onde fez o curso primário. Nesta época, quando Ubatuba era quase desabitada, o jovem seguiu para Pindamonhangaba, onde concluiu o curso secundário e se formou na escola de Farmácia, uma vez que suas condições financeiras não permitiam que fizesse o que mais queria: Estudar Medicina.

Após várias tentativas de se adaptar em São Paulo, o jovem farmacêutico não resistiu ao charme e beleza de sua terra natal, retornado, e por mais de 50 anos dirigiu sua farmácia, fazendo as vezes de médico que por duas décadas faltara à cidade. Em Ubatuba não havia médico e as dificuldades com a saúde eram constantes. A única opção era levar os doentes em lombo de burro através de precárias picadas até os médicos de São Luiz do Paraitinga ou Taubaté. Diante disso, filhinho montou sua pequena farmácia e começou a atender os doentes.

Seu Filhinho
Seu” Filhinho

Depois que fechou a tradicional “Farmácia do Filhinho”, Washington se dedicou à história e à literatura. Sempre teve grande preocupação de registrar os fatos mais importantes da cidade, tanto históricos, como políticos e sociais para preservação da memória caiçara, além de ter gravado depoimentos que são usados por estudiosos da história e tradição ubatubense, e ter escrito três livros.

Obra Literária
“Ubatuba Documentário”, seu livro de estreia, relata a formação do Município e é uma das mais completas obras de referência sobre Ubatuba, um verdadeiro acervo da história ubatubense no período compreendido entre 1500-1937. Seu segundo livro editado, foi “Lendas e Outras Estórias”, uma obra de ficção que traz à tona o folclore, já o cotidiano da história recente de Ubatuba está em seu terceiro livro, “A Farmácia do Filhinho”.

Livros do Seu Filhinho
Livros do Seu Filhinho

Desta vez, o autor não precisou recorrer aos arquivos para estabelecer o passado, nem se debruçar sobre anotações históricas no tampo da escrivaninha. Bastou-lhe memória, para viver intensamente sua época, e nos retratar personagens e situações de Ubatuba antiga. “Seu Filhinho” não foi um historiador, mas um contador autêntico, um registrador exato dos feitos de Ubatuba, e por duas ocasiões, em 1936 e 1945, ocupou a Prefeitura Municipal e sempre esteve presente aos eventos mais significativos de Ubatuba.

Washington de Oliveira - Seu Filhinho
Washington de Oliveira – “Seu” Filhinho

Washington de Oliveira cumpriu seu papel de cidadão, sempre em prol da cidade de Ubatuba e, diga-se de passagem, fez muito, não apenas por ter vivido bastante, mas, principalmente, por sua postura. A FundArt prestou homenagem a “Seu Filhinho” com o Concurso de Contos, que leva seu nome, outra demonstração de carinho e respeito foi recebida dois dias antes de seu falecimento, quando a FundArt organizou a visitação da Folia de Reis que, junto com membros da comunidade e familiares o homenageou.

Capitão Felipe Cel Ernesto e Filhinho
Capitão Felipe, Cel Ernesto e Seu Filhinho – Foto histórica

Sempre foi contrário à chamada modernização, a derrubada dos casarões antigos e a expansão das construções “modernas” que descaracterizaram Ubatuba. Na época, foi duramente criticado, mas hoje se percebe que ele tinha razão, pois Ubatuba perdeu parte significativa de sua história com a falta de preservação de suas construções. Washington de Oliveira, foi eleito a figura mais ilustre de Ubatuba do século XX, e em sua homenagem, o Museu de Ubatuba, recebe o nome de Museu Histórico Washington de Oliveira.

"Seu "Filhinho
“Seu” Filhinho – Imagem extraída do perfil @silcefon

Um belo passeio com “Seo” Filhinho por Ubatuba (De um Caiçara Ubatubense)
Certo dia, eu, ainda aprendiz de construtor, fui escalado por “Seo” Filhinho, para executar alguns reparos na morada do conterrâneo, dentre os serviços á serem executados o conserto de uma parede de tijolos que “teimava em se trombar” com carro (Fiat Oggi) de nosso querido e estimado farmacêutico. Nesse dia tomamos um café com banana da terra, (tinha umas pencas que ficavam penduradas na cozinha), e depois fiz o orçamento dos materiais, e, pedi ao “Seo” filhinho para irmos ao depósito da Dona Sylvia Ley na rua do Cemitério.

O Problema, é que o bendito carro não queria funcionar de jeito maneiro. E, não deu outra, fomos empurrar o bicho pra vê se pegava no tranco. Tiramos o possante da garagem, “Seo” Filhinho se aprumo no banco, e bora empurra o possante até a Avenida Iperoig, mas nada de funcioná. Fazê o quê, vamos tentar fazer o bólido pegar na Iperoig, e bora empurrar. Minutos depois…Bora empurrar de novo e já estávamos passando a rua do Cemitério, (Dom João III), e nada do ronco do motor. Um “parmo” de língua para fora, o suor fazendo o “zóio” arde, e toca empurra o carro do “Seo” Filhinho, agora já passando pela rua Liberdade, e, as pernas pedindo liberdade por “modi que já tava bamba”.

Imagem de Seu Filhinho - extraída de @silcefon
Imagem de Seu Filhinho – extraída de @silcefon

O sol ardia no “coco”, o sal se esvaia do corpo, a boca tava seca, a perna tava bamba, e nada do “bendito” carro pegá. “Arrelá”. Mais uns minutos, chegamos ao portão do Aeroporto Gastão Madeira, ai já não tinha mais perna pra “modi” de empurrá o carro. Botei a cara na janela do Oggi, e antes de buscar as ultimas energias para dizer que não aguentava mais, o nobre amigo se deu conta de que não havia “ligado” à chave de contato do possante…Pelo menos á volta foi no banco de passageiro.

“Seu Filhinho” nos deixou em 19 de janeiro de 2001, aos 94 anos, mas sua obra será lembrada e revivida para sempre.

Fonte das informações:
goo.gl/7mLjGI
Livro: Lendas & Outras Estórias de Washington Oliveira
https://www.ubatubavirtual.com.br/filhinho.htm