Zé Capão – E a Estátua “O Caiçara”

Esta é a história de Zé Capão, um dos pescadores mais Ilustres de Ubatuba, caiçara de pés descalços e típico do local, pescador raiz, por isso teve sua homenagem inspirando a estátua “O Caiçara” que temos na entrada da cidade, para quem chega pela rodovia Osvaldo Cruz. Andava pela cidade com seu carrinho de mão de madeira e os balaios de timbopega cheios de peixes.

Zé Capão
Zé Capão – foto de 1946, extraída do livro: O Meio Rural – Carlos Borges Schmidt

Tinha o hábito de pescar com sua esposa na Prainha do Matarazzo e frequentar a Praia do Cruzeiro ao entardecer. Zéca Pão, Zé Capão ou melhor: Zécapão tudo junto e misturado. Grande Caiçara Ubatubense. Pai do artista D’águas e avô de Tiano Mendes mais arteiro ainda. Personagem histórica de nossa Ubatuba. Além de exímio “pescadô”, foi também “trabalhadô” numa padaria em Ubatuba. Dai o famoso nome.

Seu nome de batismo é José Vieira Mendes, mais conhecido pelo apelido de Zé Capão ou Zéca Pão, nativo, olhos miúdos e azuis, de estatura mediana, de físico entroncado. Residia a rua Professor Thomaz Galhardo nº 136, ao lado da Santa Casa, onde sempre morou. Nasceu nesta cidade de Ubatuba, em 19 de março de 1912, e faleceu em 04 março de 1974. Zé Capão era funcionário público municipal, lotado no cargo de coveiro, exímio pescador e carnavalesco por natureza. Era pândego, e muito falante entre os companheiros da pesca.

Os turistas rapidamente ficavam maravilhados com suas histórias e explanações sobre táticas de pesca. Zé Capão não sabia nadar. Por esse motivo não se arriscava em pescaria embarcada. Nunca entrou em uma canoa. Também não pescava na costeira pulando pedras, devido sua miopia acentuada. Das 4 horas da madrugada até as 9 horas da manhã, ficava puxando rede de arrasto artesanal (arrastão de praia), era camarada dos donos de rancho de pesca. Se a pescaria fosse farta, saia vendendo em um carrinho de mão pelas ruas da cidade.

Após o almoço, retornava a pesca profissional, mas de fundo esportivo. Na frente de sua casa, mantinha um estaleiro forrado com folhas de coqueiros diversos, porque nos arredores da cidade não tinha a famosa palmeira “Guaricanga”, que seria a mais indicada, por ser comprovadamente a mais forte e durável, usada também na cobertura de ranchos de pesca, e casas dos pescadores. As vezes, usava treliças de bambu, um pouco mais trabalhoso, formando uma espécie de jirau para secagem de peixes. O arrastão raspa tudo do fundo mar, depois da escolha, são descartados os peixes pequenos, sobrando os chamados de “miuçalhas”.

Aí, Zé Capão passava um pente-fino nessas miuçalhas, fazia a devida limpeza, salgava e ia para o estaleiro secar ao sol. Na roda de pescadores, simplesmente Zé ou Zé Vieira. Mas, às vezes escapulia… Zé Capão, ele nada respondia. Os seus locais prediletos de pesca eram: Boca da Barra, no centro, Pedra do Cabo, na Prainha do Matarazzo e o Cais do Porto. Os peixes preferidos para pescar eram: Robalo, Bagre-Cumbaca, Bagre-Amarelo, e as valentes Pirajicas. No seu roteiro de pesca ia sempre acompanhado de sua mulher, Dona Sebastiana Conceição Vieira Mendes que nasceu em 1913 e faleceu em 20 de dezembro de 1994, mais conhecida como “Tiana do Zé Capão”, sua fiel e inseparável companheira de pesca.

Foi em umas dessas pescarias de Pirajica no Cais do Porto, que Zé Capão se consagrou com essa célebre frase, ao ferrar uma Pirajica de mais de 6 kg. E a luta travada com o peixe, já passava de 15 minutos, o povão agitado em cima do cais esperando o desfecho. Tiana então, muito nervosa, corria de um lado para o outro e aos gritos dizia: leva na escadinha… leva na escadinha do cais! Quando a vara envergou e a ponta chegou ao pé, foi quando Tiana gritou: – VAI ESCAPAR… ZÉ! Zé Capão, que suava o topete para tirar a enorme e valente Pirajica fora d’água, respondeu – QUE NADA… TIANA! PASSA O BIROTE, QUE ESSA TÁ NO NALHO DO ZÉ VIEIRA!

A notícia rapidamente chegou a cidade, e por várias semanas não se falava em outra coisa. A frase, rapidamente foi cortada, aproveitando somente, o final, “TÁ NO NALHO DO ZÉ VIEIRA”. Qualquer um pode usar, desde que tenha praticado uma proeza qualquer, principalmente aqueles que gostam de levar vantagem em tudo. Podem ser momentos esportivos, amorosos, negócios etc. Os jovens caiçaras usavam por qualquer motivo, principalmente quando conquistavam uma garota, aí saiam aos quatro cantos da cidade dizendo: “MULHER COMIGO É ASSIM! CAIU NO MEU PAPO, TÁ NO NALHO DO ZÉ VIEIRA!” Quer dizer que está bem segura, está presa, não sai mais daqui.

Esta frase foi usada pelos caiçaras do centro por muito tempo. O Birote é uma corda mais resistente, com mais ou menos 10 metros, que os pescadores mais antigos e precavidos, usavam devido à fragilidade da vara de bambu. Essa corda mais grossa, era amarrada em continuação da linha do anzol a partir da ponta da vara, até o pé, onde fica enrodilhada como um coque. Se o peixe for muito grande, joga-se a vara na água, para não quebrar, e fica com o birote na mão, para tentear o peixe até que ele fique cansado. O nalho, que ele se referia, era a linha de nylon, da vara, quê, sendo dele, era mais forte que as demais, impossível do peixe arrebentar.

Zé Capão contava que certa vez, também prendeu 54 pássaros (sanhaços), na cumbuca de um mamão, e quem não acreditar, que pergunte a minha mulher Tiana, dizia “Zé Capão”, pois foi ela quem matou os pássaros, e fez um cozido com chuchu e batata. Essa história fica para outra vez, e como esta… têm várias. Contar história de pescador sem cita-lo é impossível.

A construção da estátua “O Caiçara” 
No início, a ideia era esculpir uma estátua, sendo uma cópia fiel do folclórico pescador Zé Capão, para homenagear todos os caiçaras de Ubatuba.

Estátua "O Caiçara"
Estátua “O Caiçara”

Mas, no decorrer da construção da obra, comentários tomaram conta da cidade, que a estátua era desproporcional em relação aos padrões físico do homem caiçara, principalmente nos membros inferiores e superiores, e até mesmo o membro viril foi questionado. O símbolo dos pescadores foi descaracterizado por inteiro.

O escultor, José Demétrio da Silva, contratado pela prefeitura no governo Paulo Ramos, se propôs a esculpir em concreto armado, uma réplica a partir de uma foto vista de perfil, do pescador Zé Capão, mas não conseguiu. 

A estátua que era para ser esculpida de perfil ficou de frente, e de rosto afilado, quando o de “Zé Capão” era cheio. Foi acrescentada barba cumprida que ele nunca usou. Ele tinha o corpo entroncado, ficou esguio. Eram dois remos, excluíram um. O agasalho sobre os ombros foi substituído por um pedaço de rede. A camisa, era de manga cumprida e enrolada, ficou de manga curta. Acrescentaram calça justa e barra dobrada, quando a dele era folgada e de barra enrolada.

foto de Zé Capão e a estátua
Foto de Zé Capão e a estátua

Alguns dizem que esta escultura, se tirarmos o remo e o chapéu, e acrescentarmos um quepe, transforma-se em uma fiel escultura de um patrulheiro rodoviário. Outros dizem que esta escultura nada mais é, do que um bandeirante segurando um remo mal acabado, que mais parece com uma nadadeira de baleia.

Para não se indisporem, foi mais fácil mudar o discurso, dizendo que a escultura, é uma homenagem não a uma pessoa em especial, mas sim, a todos os caiçaras e moradores de Ubatuba.

O nobre escultor foi hábil, quando esculpiu o bandeirante, em Taubaté e em outras cidades, mas na escultura do pescador, muitos acreditam que ele deixou a desejar.

O Ganso no Anzol – Mais uma das história de Zé Capão
Aqui em Ubatuba sempre existiu bons pescadores. O “Seo” José Vieira, o famoso Zé Capão, que até inspirou a estátua na rodovia, na entrada da cidade, era um desses que, além do talento natural, conhecia os melhores pontos de pesca dessas costeiras todas. Porém, pescar no cais do porto (Caisão) tinha a preferência. O motivo era que, por ser um lugar onde desembarcava muita sardinha, sempre caía algumas que engodavam os cardumes e atraía mais peixes para aquele lugar.

Por isso que ali dava muito robalo, caçonete, pirajica, sargo e tantos outros. Por ali também sempre tinha polvo.  Até mero tinha por lá. Numa época assim, em mês de agosto, num dia de muita neblina no mar, quando só se enxerga poucos metros adiante do nariz, lá se foi Zé Capão com a Dona Sebastiana, pescar robalinhos lá pras bandas do cais. O casal sempre pescava junto.

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Como todo mundo sabe, o Zé Capão tinha as melhores linhas, dessas que aguentam peixes graúdos. Também não era de economizar em anzol encastroado. Por isso levou uma das mais fortes, de mil metros de comprimento. Era pra pescar longe, pra garantir peixe grande. O homem não era brincadeira não!

Era costume dele ir pescar robalo com isca de parati vivo. Deu sorte de passar pela rede do Fifo e aproveitou para pegar alguns que se debatiam. Acho que eu disse que o dia estava encoberto de tal modo que mal se enxergava a ponta do nariz. Zé Capão chegou em cima do cais, iscou um parati bem graúdo no anzol, pediu pra mulher se abaixar um pouco, deu um giro de mais da metade do corpo e, parecendo pião de carrapeta, rodou por uns dez minutos para, com toda a força que Deus lhe deu, arremessar os mil metros de linha água afora. E já foi dizendo:

– Pega aí um bitelo, de dezoito quilos pra lá. Vamos ver se o velho tá bom.
Não demorou muito e o bichão botou a boca. Zé Capão deu a ferrada, firmou a linhada na mão e disse se rindo:
– Mulher, é do jeito que eu queria! Agora você vai ver como eu continuo em forma, inteiro ainda!
Aí começou a briga. Puxa que puxa, com o homem se esforçando até saltar as veias do pescoço. E aí a surpresa: o bicho bambeou na linhada, aboiou, bateu asas e voou. O que aconteceu? Zé Capão tinha ferrado o ganso do Jaca Vigneron que estava mariscando na Praia do Itaguá, indo na direção da barra do Acaraú, bem longe dali.

Na verdade, ele arremessou com muita força a linha. Foi com tanta força que, lá do cais, o anzol veio cair na Praia do Itaguá. Ganso, assim como pato, é bicho guloso, criação que come de quase tudo. Ao ver aquele peixe nobre no anzol que caiu na areia, ainda se debatendo, não pensou duas vezes. E deu no que deu. Depois de passado alguns dias, até tendo se esquecido do pirão que fez do ganso, o velho pescador deu de encontro com o Jaca que trazia uma lata de milho, ia até a praia, estava à procura do ganso.
– Seo Zé Vieira, você viu um ganso por aí? Já tem uns dias que ele não aparece em casa nem pra comer.
– Imagine, Seo Jaca, se eu tivesse botado reparo nele, eu logo diria pro senhor. Mas não se preocupe não porque assim que eu ver o bicho eu aviso sim. É um dos grandes, bem branco, né?
– Isso mesmo! Disso eu não duvido, seo Zé. Isso, se não foi algum bicho que comeu, é safadeza de alguém. O Olâmpio e o Fifo, que sempre andam por aqui, são desse feitio, arteiros. Até podem ter comido o meu ganso. Ah, se eu souber de alguma coisa assim!

Fontes das Informações:
https://oubatubense.wordpress.com/2018/07/30/ganso-no-anzol/
Publicado em http://www.ubaweb.com/revista/g_mascara.php?grc=5179
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